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sábado, 26 de dezembro de 2009

O meu Shack em 2009

















Na Vida...tudo muda, a inclusao das novas tecnologias no Radioamadorismo deu este resultado que a foto mostra, nada parecido com o aspecto que o meu shack tinha em 1974...e o que mais vira por ai.!!!!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O Meu Shack em, 1974

















Era este o cenário da minha Estação de Radioamador,das minhas histórias sobre o Radioamadorismo que aqui descrevo.
Equipamentos de AM autoconstruidos, coisas rudimentares que davam um prazer enorme em constuir e depois era só saborear os longos e aprasiveis QSO's entre os diversos Radioamadores de todo o Mundo.
Foram tempos de Glória.!!!
Bons velhos tempos do AM.!!!
Francisco Gonçalves
CT1DL

domingo, 29 de novembro de 2009

RELEMBRANDO OS AMIGOS - CT1VC

CT1VC
Rui Sá Nogueira

O episódio que vos conto hoje, passou-se aproximadamente á uns 37 anos, (morava nessas altura nos Olivais Sul), estando ainda na minha fase de iniciação ao Radioamadorismo.
A minha intenção ao contar-vos este episódio é apenas e só, sensibilizar os Radioamadores da “Nova Geração” para este tipo de situações que podem ocorrer a qualquer um de vós, mas que demonstra bem o Civismo e a compostura dos Radioamadores dessa Época.

A coisa passou-se mais ou menos assim:
- Numa noite quente de Verão, estava em QSO com um Amador aqui da zona de Lisboa, na banda dos 2 metros, que era CT1OB-Hilmar Magro, na altura morando em Pirescoxe-Santa Iria de Azóia, meu Amigo e antigo Colega de trabalho, quando ao passar-lhe a palavra, deparei-me com uma coisa que nunca me tinha acontecido.
Tinha um ruído fortíssimo na recepção.
Atribui logo esse ruído, a alguma avaria no meu sistema de recepção ou até mesmo a qualquer anomalia do meu correspondente.
Aguardei para ver se o ruído desaparecia, mas…nada.
O ruído fortíssimo continuava, mais parecendo uma portadora propositadamente colocada na mesma frequência do CT1OB, o que vim a constatar que não.
A coisa era muito pior ainda…a interferência mantinha-se em toda a banda dos 2 metros, dos 144 até aos 146 MHz .
Era um sólido 5/9 + 60 dB….como se diz em gíria…ponteiro a fundo.!!!
Acabado o QSO, devido ao facto de não escutar ninguém em toda a banda dos 2 metros motivado pelo ruído intenso que tinha, desliguei todos os equipamentos e fui descansar.
No dia seguinte, como eu só entrava no trabalho ás 15 horas, durante a manhã fui ligar de novo a “tralha” toda dos 144 MHz para ver como estava a coisa.!!!
E ….para grande espanto meu, tudo estava a funcionar a 100%, inclusivé, escutei um QSO entre dois amadores aqui dos arredores de Lisboa em perfeitas condições, sem ruído, sem interferências, umas emissões limpinhas e ausentes de qualquer ruído.
Fiquei logo a pensar, que havia ali “bruxedo” .!!!
Então na noite anterior, o ruído era constante em toda a banda dos 2 metros, nem sequer me deixava escutar estações que estavam em linha de vista com a minha, e agora no dia a seguir, estava tudo bem, sem ruído, sem interferências,…isto era de desconfiar.!!!
Á boa maneira do “Zé Purtuga”…comecei logo a imaginar, avaria do conversor de 144 MHz, avaria do receptor, avaria da antena, avaria da fonte de alimentação, cabo coaxial defeituoso, só me faltou desconfiar do “autoclismo” lá de casa….o resto, tudo me veio á ideia.

Chegada a hora de ir para o trabalho, a primeira coisa que fiz quando lá cheguei, foi ir tem com o CT1OB – Hilmar e falámos dos acontecimentos da noite anterior.
Trocámos impressões, mas não chegámos a conclusão nenhuma, visto o sistema estar a funcionar outra vez a 100%, o que nos levou a combinar para a noite daquele dia, uma nova experiência para ver os resultados.
Andei todo o resto do dia a pensar, no que iria acontecer.!!!
Logo após, ter regressado a casa, o meu propósito foi logo ligar o sistema todo para ver se aquilo tudo estava a funcionar.
A banda estava limpa….sem ruídos, sem interferências, até escutei o CT1FM-Sérgio Marques (já falecido) aqui de Lisboa em QSO com outro Amador que não me recordo o seu Indicativo.
Tudo parecia estar a funcionar a 100% pensei eu.!!!
Parecia que o “bruxedo” tinha acabado.!!!
Bem…agora faltava só chamar o CT1OB conforme tínhamos combinado.
Então…lá foi feita a chamada pelo Hilmar o que de imediato me foi contestada, dando inicio a mais um QSO.
Tudo parecia estar na verdade a correr com normalidade, o sinal do CT1OB era fortíssimo, a modulação belíssima, enfim….a coisa não havia duvidas algumas, estava a funcionar com normalidade.
Entretanto um outro Amador tinha-se juntado a nós no QSO, era o CT1ZU-Melo também meu antigo Colega de Trabalho, que estava a emitir desde a Praça do Chile em Lisboa.
O sinal era bastante forte também, uma emissão explêndida, sem nada a assinalar.
Até que…!!! O inesperado aconteceu….estava a escutar o CT1ZU e…Tchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii Tchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii….lá estava ele outra vez….estava tudo estragado de novo….Para os meus botões disse raios e coriscos, barafustei, gritei, deu-me vontade de esmurrar o receptor e o conversor de 144 MHz, mas….tive de me acalmar e tentar resolver aquele fenómeno que se estava a passar comigo.
Fiquei novamente, sem qualquer possibilidade de escutar alguma emissão em toda a banda dos 2 metros, o ruído estendia-se por toda a banda, forte, intenso e sem qualquer indicio de tentar desaparecer.
“Estou entregue aos bichos”, pensei eu.!!!
Mesmo sabendo que não iria escutar ninguém, e como a frequência do CT1ZU era muito pertinho da minha, tentei sair para o Ar e informá-los que estava com o mesmo problema e que não podia escutá-los devido aquela interferência que teimava em não desaparecer aquela hora.
Já não voltei a escutar mais ninguém durante toda a noite.
Entretanto, como eu me tinha ausentado e deixado de emitir, o CT1OB telefonou-me a perguntar o que se estava a passar, dando-lhe eu nota do acontecimento, o que o deixou altamente admirado.
A coisa, não havia duvidas, era muito esquisita, mas estava mesmo a acontecer.
Voltei a desligar tudo e novamente como na noite anterior fui-me deitar, sem que antes voltasse a tentar arranjar uma explicação para os acontecimentos, o que não consegui.
Dei voltas e mais voltas até adormecer, sempre a pensar naquela coisa esquisita que se estava a passar.
Novo dia….logo que acordei, lá fui de novo ligar o equipamento de 144 MHz e lá estava….tudo limpinho…sem ruído, sem interferência alguma, um sopro levezinho quase nulo, característico do AM, tudo estava normal.
Bem…tenho de ir á “bruxa”…isto é demais…umas vezes isto funciona, outras não …mas como é que eu devia de resolver isto, pensei.????
Quando cheguei ao trabalho, voltei de novo a trocar impressões com o CT1OB e também com CT1ZU que na noite anterior se tinha juntado a nós, para apreciar aquele fenómeno que se andava a passar.
As conclusões a que chegámos, não foram nenhumas…restava-nos deixar correr o tempo e ver se aquilo se resolveria por si próprio.!!!
Regressei a casa após o trabalho, mas muito sinceramente…não me apeteceu nada ligar os Rádios, com receio que de novo, voltasse a acontecer o mesmo problema com as interferências, o que me levou a fazer uma pausa e juntar-me á Família na sala, a ver Televisão, até porque o meu “Benfica” jogava mais uma Gloriosa jornada da Taça dos Campeões Europeus (estávamos na Época Áurea deste Clube, do Eusébio, do José Augusto, Torres, Coluna…etc…por volta dos anos 72/73).
Até que…”um milagre aconteceu….”.
Tocaram á porta…a minha Mãe deslocou-se até lá para a abrir, ouvi a minha Mãe a falar com alguém, seguido de um pedido…”Zé...chega aqui á porta, que está aqui um Senhor que quer falar contigo.!!!”
Pronto…já não posso ver a bola descansado, pensei.!!!
Desloquei-me até lá, deparando-me com um Senhor de meia idade, muito sorridente e simpático, que me estendeu a mão e se apresentou: - “olá….eu chamo-me Rui Sá Nogueira ,sou seu colega Radioamador e seu vizinho aqui do prédio ao lado, moro no 7º.andar e venho aqui pedir-lhe mil desculpas das interferências que lhe tenho estado a causar na banda dos 2 metros á uns dias a esta parte.!!!”
De imediato, mandei entrar o Sr.Rui que fazia questão em não incomodar áquelas horas, tanto mais que reparou que estávamos a ver o futebol na Televisão (só havia a RTP1 e RTP 2 na altura), coisa que ele não era grande adepto segundo me confessou.
Fiz questão que entrasse, o que o Sr. Rui acabou por ceder ao meu convite, deslocámo-nos até ao local onde tinha a minha modesta estação, que apenas era composta por um receptor musiqueiro Hornyphon, um conversor home made CT1KQ 144/10 MHz e um emissor de VHF com 1 válvula QQE03/20 no andar final, isto tudo em AM (Amplitude Modulada) construído pelo CT1OB-Hilmar Magro, o microfone era uma pastilha de Cristal da marca Mérula -Made in Italy, como antena tinha uma Yagi de 5 elementos de construção caseira, home made CT1DL.
Como podem ver, “…era uma Estação e peras….”
Então com mais calma, o meu vizinho Rui, apresentou-se como Radioamador, informando-me que o seu indicativo era CT1VC, o que me deixou bastante satisfeito de saber, que tinha ali ao meu lado um vizinho Radioamador que podia pedir ajuda, quando estivesse em dificuldade.
O Colega Rui CT1VC, trabalhava quase que exclusivamente em onda curta (HF), daí uma noite o ter escutado no meu velho receptor musiqueiro, em QSO com um colega do Brasil da zona de S.Paulo, na banda dos 80 metros em AM, escutando eu o colega do Brasil fortíssimo com um sinal que não podia medir, uma vez que o S-Meter do meu musiqueiro, era uma válvula olho mágico EM-80 (…alguém se lembra disto.???).
Naquela altura, não fazia a mínima ideia que o CT1VC, morava paredes meias comigo.
Já tinha visto a antena dipolo para 80-40 metros montada na traseira do prédio, que na realidade vim a constatar que o cabo de baixada ia mesmo direita á janela do Shack do Colega Rui.
Foi então que o Colega CT1VC, começou por contar a história daquele mistério que se andava a passar fazia uns dias, que me impossibilitava de a partir de uma determinada hora, manter QSO com qualquer colega na banda dos 2 metros.
Então a história era esta…
O CT1VC tinha acabado de construir, fazia uns dias atrás, um receptor que tinha sido publicado pelo CT1DT-Mário Portugal, num Boletim da REP-Rede dos Emissores Portugueses (tenho ainda em meu poder o Boletim da REP dessa altura, visto mais tarde eu também ter construído um receptor idêntico que me deu grande prazer construir), era um receptor regenerativo que trabalhava com uma válvula 6U8 como osciladora e tinha um amplificador de áudio composto com uma válvula 6AQ5.
E a coisa trabalhava muitíssimo bem em toda a banda dos 2 metros, incluindo a banda da aviação (naquele tempo ainda não andavam os Radioamadores a desviar aviões do Aeroporto de Lisboa através da Rádio…hi…hi…hi…), mas… tinha um grande problema: - é que estes circuitos receptores regenerativos, devido á concepção do próprio circuito, também emitem simultaneamente um sinal que embora fraco, pode causar algumas interferências nas redondezas.
Era isso mesmo, que o Colega Rui Sá Nogueira CT1VC se apercebeu, quando começou a ouvir-me dizer, que já estava com a tal interferência outra vez, logo após ele ter começado a escutar-me no regenerativo que tinha construído.
Vieram de seguida os pedidos de desculpas apresentados pelo CT1VC, “que não aceitei”, uma vez que, não havia qualquer intenção dele em me estar a prejudicar, nem sequer se ter apercebido do facto, não fosse eu referir que tinha a dita interferência, aos colegas com quem estava em QSO.
Logo consequentemente, nada havia a desculpar, pois estávamos todos inocentes.!!!!
O CT1VC, de seguida convidou-me e fez questão, que eu me deslocasse a sua casa, para poder apreciar o causador daquele “embróglio” todo, bem como ver mais uma estação de Amador a funcionar.
Claro que….aceitei de bom agrado, e lá fomos até ao Shack do CT1VC, que era ali mesmo no prédio ao lado.
Fui recebido pela sua Família, nomeadamente por sua Esposa, que nos acompanhou até ao local da sala, onde estava toda a estação maravilhosa do meu Vizinho Rui Sá Nogueira.
Era um quarto amplo e espaçoso, aliás igual a uma das divisões de minha casa, uma vez que as elas eram iguais.
Fiquei deslumbrado…espantado até, com a disposição e organização daquele Shack. !!!!
Tudo arrumadinho, alinhado, os equipamentos estavam esteticamente bem distribuídos, uma Maravilha.!!!
Mas os meus olhos pararam logo, num grande e vistoso Rack, que se situava junto á janela, onde estavam montados alguns módulos, que o Colega Rui Sá Nogueira me explicaria ser um emissor de onda curta dos 10 aos 80 metros em Amplitude Modulada.
Tinha sido totalmente construido por ele, feito com uma perfeição incrível, mais parecendo um equipamento de Broadcasting de Fábrica.
Aliás... vim a saber depois, que tinha sido aquele equipamento que eu tinha escutado algum tempo atrás, nos 80 metros com o Radioamador Brasileiro.
Era uma coisa digna de se ver, alias poderão os Colegas apreciar o mesmo, numa foto que acima vos mostro e que me foi oferecida na altura pelo Colega CT1VC.
O equipamento em questão é aquele que está nas costas do Colega Rui.
Mas a demonstração começou em primeiro lugar, com a apresentação do receptor Regenerativo de VHF, que o CT1VC tinha construído á uns dias atrás e que tinha sido o causador, de nós estarmos ali naquela altura em QSO de metro.
Lá veio então o “dito cujo” montado num magnifico chassis de alumínio, bem reluzente, onde estavam cuidadosamente dispostos todos os componentes, das valvulas 6U8 e 6AQ5, do dial de alumínio improvisado para servir de desmultiplicador do quadrante, tudo...tudo cuidadosamente bem feito e com uma perfeição impecável.
Aliás...deixem-me dizer-vos que a profissão do Colega Rui Sá Nogueira, era Desenhador Industrial, daí todo o rigor e perfeição das sua montagens.
O CT1VC lá ligou então o regenerativo de VHF e uma forte sopradeira invadiu os nossos ouvidos, tendo sido logo ajustado o potenciómetro da regeneração, de modo a que o sopro fosse mais suave e macio para os nossos ouvidos, aquela hora da noite.
Feita uma breve busca ao quadrante lá escutámos uma estação na banda dos 2 metros...era o CT1ZX de Moscavide, em QSO com o CT1XI ali dos Olivais Sul, bem perto de nós.
Uma recepção explêndida e clara, dado que ambas as estações estavam perto de nós.
Rodado o dial um pouco mais para baixo, lá estava o operador da Torre de Controlo do Aeroporto de Lisboa, a autorizar que o VARIG XXX, descolasse da pista 36, devendo virar para o corredor da Arruda...etc...etc...
O CT1VC estava maravilhado e eu também, com aquilo que estávamos a ouvir e da forma limpa e suave com que se escutávamos todas as transmissões.
Entusiasmei-me logo, para construir também uma “coisa daquelas” para ter lá no meu modesto shack.
O CT1VC teve então oportunidade de me mostrar um receptor de VHF que tinha feito parte do espólio de um Navio da Marinha Portuguesa, adquirindo-o num “Ervanário” (nome dado aos Ferro-Velhos que vendem sucatas de equipamentos adquiridos aos diversos ramos das Forças Armadas e que depois seguem para desmantelamento e consequente aproveitamento para as Fundições), receptor este que era de uma marca que não me ocorre o nome, sendo a sua referência um BC-Qualquer coisa.!!!!!
Era uma coisa imponente, parecia uma catedral, creio que cobria salvo erro, as bandas dos 70 MHz aos 470 MHz, já com o modo de FM.
Coisa pequena….deveria ter uns 60 cm de altura, por 50 cm de largo e de fundo deveria rondar os 70 cm., devendo pesar á volta dos 30 Kilos.!!!
Um autentico portátil…daquela época.
Tinha um comutador enorme… para mudar de banda, e um quadrante amovível com a respectiva escala da banda seleccionada.
A recepção era belíssima em FM, pois cobria também a Banda de FM Comercial da altura (apenas a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português tinham emissões em FM Stéreo) permitindo-nos escutar FM embora em Mono, mas com uma qualidade explêndida.
O receptor, até tinha S-Meter, o que para aquela altura era inovador, atendendo a que era um rádio militar.
Tivemos tempo ainda de trocar mais umas impressões, sobre antenas de onda curta e de Yagis de 2 metros, cabos coaxiais, trap’s para antenas, pois eu tinha acabado de montar, uma antena W3DZZ que usava esse tipo de trap’s e que funcionava muitíssimo bem em todas as bandas de HF.
Sobre esta antena W3DZZ não resisto em compartilhar convosco, um episódio que aconteceu comigo, pouco tempo depois de ter montado a antena no telhado do prédio onde morava.
Estávamos em pleno Inverno, tarde chuvoso e ventosa de sábado, deitei mãos á obra e fui esticar o fio da antena, com os dois trap’s de construção “CT1LI” também conhecido como a antena LI-LI com trap’s.
A “dita cuja” foi então montada entre dois pilares de cimento que se situavam entre dois extremos do prédio que tinha a configuração de um “U”.
Começou a chover torrencialmente, levantou-se um vento forte que parecia uma tempestade, assim tentei despachar a coisa o mais rápido possível, para evitar de me molhar até aos ossos.
Atei atabalhoadamente as pontas do dipolo com os trap’s, enrosquei a ficha PL ao isolador central, deixei cair o cabo coaxial na direcção da janela do quarto onde tinha montada a estação de rádio, retirando-me em seguida escada abaixo até casa, sem que deixasse de sentir a agua a ensopar-me a roupa até ao tutano dos ossos.
Parecia um pintainho.!!!!
Chegado a casa, fui logo experimentar a antena, tendo os resultados sido fabulosos.
Nunca mais me ocorreu, que devido á chuva e ao vento forte, não tinha atado a antena em condições de segurança, daí que……no dia seguinte (Domingo) logo pela manhã, bateram-me á porta e entregaram-me um trap da antena, assim como uma conta de umas dezenas de escudos, para pagamento de um vidro da janela do vizinho do 2º.andar do prédio em frente, pois durante a noite anterior, o extremo do dipolo desatou-se e o trap da minha antena, entrou pela janela do vizinho, sem que para isso tivesse pedido licença a alguém, indo assentar calmamente em cima da cama do casal, que dormia profundamente.!!!
Radioamador é mesmo assim….as montagens são sempre provisórias, mas se funcionam, passam de provisórias a definitivas.!!!
Concordam comigo, ou não.???
Portanto, não sigam o meu exemplo.!!!
O Colega Rui foi-me presenteando, com explicações e demonstrações dos equipamentos que tinha ali na sua belíssima estação e que tinham sido, por ele construídos.
Entre eles estava um receptor de onda curta, que cobria dos 450 KHz aos 30 MHz em AM-CW e SSB, com S-Meter, um quadrante longitudinal enorme, com uma desmultiplicação poderosa, que me despertou muito a atenção, especialmente a belíssima recepção que o mesmo tinha, pois o CT1VC tinha-o ligado para eu apreciar a qualidade de recepção em Banda Lateral (USB-LSB), coisa que eu não tinha na minha modesta estação.
Estava embasbacado....os meus olhinhos quase que saltavam das orbitas, tal não era o meu espanto de estar a escutar emissões de SSB em tão boas condições.
Só vos quero lembrar que nessa altura, eu estava muito operativo como Radioescuta (era o CT0334) que recebia as emissões em SSB, com um oscilador construido por mim que trabalhava numa frequência que nunca cheguei a descobrir qual era, e que fazia uns batimentos fabulosos nas bandas de Amadores, permitindo-me assim escutar o SSB, embora com uma grande dificuldade em sintonizar as estações, mas que lá ia dando para perceber os indicativos e poder enviar o meu cartãozito de QSL via REP-Rede dos Emissores Portugueses.
Tempos muito difíceis...acreditem.!!!
Bom...eu devia ter feito um ar de espanto tão grande, que o Colega Rui CT1VC me disse assim: - “Oh...Gonçalves, olhe uma coisa, o Gonçalves vai levar este receptor para sua casa emprestado, pois eu nem sequer me estou a servir dele, uma vez que utilizo aquele ali em conjunto com o emissor de Onda curta, logo pode levá-lo por uma temporada e depois, quando voçê arranjar outro melhor, logo me trás de volta este….está bem ou não..???”
Apeteceu-me dizer sim...apeteceu-me dizer não...apeteceu-me dizer obrigado...apeteceu-me dizer não sei o quê...mas acabei por agradecer ao Colega Rui, mas não queria levar o receptor pois podia estragá-lo e depois não tinha forma de o retribuir dos danos causados.
Mas....após tanta insistência e pressão do CT1VC, acabei por aceitar a oferta de levar o receptor do CT1VC para minha casa por uma temporada.
Eu nem queria acreditar naquilo....estava a ser bom demais, parecia um sonho....mas era verdade mesmo, pois dali a algum tempo tive de carregar o receptor até a minha casa, verificando que aquilo “não era um sonho, mas sim um pesadelo”
É que sempre eram, uns bons 10 a 15 kilos...era obra.!!!!
As horas, tinham-se passado a correr, a conversa era como as cerejas, quanto mais se comiam, mais vontade tinhamos de comer, mas…. havia de terminar por ali, pois dali a algumas horas, era dia de trabalho, em especial para o Colega Rui Sá Nogueira, visto o meu horário de entrada ser ás 15 horas ás 22 horas, logo estava mais á vontade.
Contudo, tivemos de fazer as despedidas, com a promessa de voltarmos a encontrar-nos mais vezes e fazer-mos mais QSO’s de metro, pois ambos gostávamos de uma coisa comum: - “ a conversa…as construções e o Radioamadorismo….”.
E lá vim eu escada abaixo, com um receptor debaixo do braço, mas acima de tudo com uma certeza, tinha ganho a noite, tinha iniciado uma grande amizade com um GRANDE AMIGO.

O Colega Rui Sá Nogueira, faleceu este ano de 2009,
Paz á sua grande Alma de Amigo e Radioamador.!!!!


CT1DL
Francisco Gonçalves
2009

RELEMBRANDO OS AMIGOS - CT1HQ

CT1HQ
Eduardo José da Silva

Certamente para quem é do tempo do AM em VHF e morava na zona de Lisboa, este Indicativo não lhes deverá ser totalmente alheio, CT1HQ-Eduardo José da Silva, Bairro de Campolide, em Lisboa.
Quero hoje falar-vos da forma como conheci este Grande Amigo e Colega ( Já falecido ) que foi o Cê Tê Um Hotel Quebeque.
Estávamos no Ano de 1971…e eu andava em “pulgas” para que chegasse o dia…nunca mais passavam as semanas, estas pareciam anos, até que finalmente, estava na altura…era dia de me deslocar até Barcarena, mais propriamente, ao Centro de Escuta da então DSR -Direcção dos Serviços Radioeléctricos dos CTT, bem lá no alto da Serra de Barcarena, tendo como acesso uma estrada militar que era uma desgraça.
Morava então nessa altura nos Olivais Sul em Lisboa, onde vivia com meus Pais, estava quase a fazer 20 anos e o tempo de tropa estava perto.
Desloquei-me de transportes públicos até Barcarena, como era normal naquela época.
Foi uma aventura….autocarro até Cais do Sodré, comboio até Paço de Arcos e camioneta da Empresa Eduardo Jorge até á entrada da tal estrada militar, depois….bom….depois… a pé… até lá acima, ao altinho da Serra onde estavam os edifícios da DSR-CTT.
Tinha de estar lá por volta das 14 horas, eram cerca de 14:30 quando dei entrada na sala onde iriam decorrer os testes de aprovação para a classe “E” que me daria acesso durante 2 anos a poder operar em todas as bandas de amador com apenas 50 watts de potencia e após esse período de tempo teria de me propor a fazer exame para a classe “C” tendo então possibilidade de utilizar 750 watts em todas as bandas de amador sem limites de faixas.
Caso não me habilitasse a fazer exame para a classe “C”, não teria outro remédio que não fosse, só poder operar nas faixas acima dos 144 MHz., o que veio a acontecer devido ao tempo em que estive no serviço militar.
Mas….voltemos a Barcarena.
Entrei na sala que estava repleta de candidatos a Amador, ( naquele tempo… havia apenas exame, duas vezes por Ano) estavam só dois indivíduos a conversar um com o outro, ( tendo mais tarde vindo a saber que se tratavam do representante da DSR-CTT e do representante da REP-Rede dos Emissores Portugueses, Colega CT1FM-Sérgio Marques) todos os outros estavam nos seus locais sentados a fazer os testes totalmente concentrados.
Tomei calmamente o meu lugar e iniciei o meu Exame.
Estava já a terminar o meu teste, deveriam ser por volta das 15:30 hrs, quando chega um OM totalmente espavorido, baralhado, a transpirar e cansado que nem um atleta da maratona.
Depois de ter feito a justificação do seu atraso aos representantes da REP e DSR, veio mais calmamente sentar-se ao meu lado.
Olhou para mim…viu-me com cara de “betinho” e disse muito baixinho….”isto… é muito difícil.????....é que eu não percebo um boi desta porcaria….dá-me uma ajuda.????”
Eis que se ouviu logo de imediato uma voz estridente do Sr. Diogo da DSR (Pai do Falecido colega CT1EJ)….:-“meus senhores quero pouca troca de palavras entre os candidatos, pois poderão abandonar a sala sem acabar o teste…”
O representante da REP – CT1FM Sérgio Marques…riu-se e aconselhou calma.
Ouvi então… mais baixinho ainda… o colega que tinha chegado atrasado balbuciar ..”grande sacrista….”.
Fiquei a aguardar calmamente, que me pedissem os testes que já todos tinha terminado e saímos para o exterior da Sala.
Estávamos todos concentrados no Hall de entrada do edifício, aguardando directrizes dos responsáveis da DSR-CTT.
Passado alguns minutos, foi-nos informado que iríamos receber em nossas casas, a informação se tínhamos ou não sido apurados no exame.
Comecei a preparar-me de novo, para me fazer á estrada e regressar até casa, quando ouvi uma voz que já me era familiar dizer: “ você tem transporte próprio….ou vai de transportes públicos? …”…ao que respondi que ia de transportes públicos até aos Olivais Sul em Lisboa.
O meu companheiro de Teste, ofereceu-se então para me dar boleia até Lisboa, visto ter vindo de Táxi até ali e teria que ir de novo de Táxi para Lisboa.
Agradecido, aceitei a boleia.
Enquanto esperávamos a chegada do táxi, tivemos oportunidade de fazermos as apresentações mais condignamente, tendo ficado a saber que o meu companheiro de Teste se chamava Eduardo Silva, trabalhava nos Estúdios do Rádio Clube Português, na Rua Sampaio Pina em Lisboa.
Fiquei logo todo entusiasmado com aquela noticia.
Durante a viagem até Lisboa, o Eduardo Silva convidou-me para ir-mos juntos até ao Campo das Cebolas em Lisboa, pois tinha ouvido falar a um colega de trabalho que também era Radioamador o CT1PN-Nascimento, que havia lá uma Empresa que vendia equipamentos de Radioamador que era a ONDEX e que representava a Marca TRIO, que dizia ser muito boa.
Manifestei-lhe a minha vontade de também o acompanhar até lá mas….tinha o problema de poder chegar tarde a casa de meus Pais pois eles iriam ficar preocupados com a minha ausência.
O Amigo Eduardo resolveu de imediato o problema….você tem telefone em casa de seus Pais.???
Sim…tenho.!!!
Então isso resolve-se já…quer ver.!!!
Paramos á porta do Rádio Clube Português na Rua Sampaio Pina, o Eduardo pediu para o motorista do táxi aguardar um pouco por nós e deslocamo-nos ao Estúdio e na recepção telefonámos para minha casa, tendo o Eduardo Silva falado com o meu Pai, pedindo-lhe autorização para que eu chegasse um pouco mais tarde a casa, porque iríamos inclusive jantar juntos e comprometeu-se levar-me a casa após o jantar, para evitar preocupações por parte dos meus Pais.
O meu Pai…com muito custo… lá cedeu ao pedido do Eduardo Silva, o que me levou a saltar de contente.!!!!
Lá fomos nós… até á ONDEX no Campo das Cebolas em Lisboa, de táxi claro.!!!!
Visitámos a sala de exposição de equipamentos de Radioamador, uma vez que a Empresa estava mais vocacionada para a Área de Telecomunicações Marítimas.
Fiquei espantado com aquilo que estava a ver.
Lembro-me do Receptor TRIO JR-500SE ( algum tempo depois, tive um receptor destes que me foi cedido pelo CT1ZX-Rui Penaguião), lembro-me do TRIO TR2E de VHF, do TRIO TS-510 e outros.
Quando regressamos da ONDEX, o Eduardo Silva entregou-me um Catalogo da ONDEX onde tinha o Receptor JR-500SE, onde anotou á mão o seu Nome e o telefone de sua casa, para futuros contactos.
Ainda hoje…passados todos estes anos, tenho guardado religiosamente esse catalogo nos meus pergaminhos.
O Eduardo Silva mostrou-se logo interessado num equipamento que era o TRIO TR2E de VHF, que mais tarde veio a adquirir.

Dali fomos jantar a um Restaurante na Avenida de Roma, ao lado do Hotel com o mesmo nome, onde o Eduardo já era conhecido e ali nos encontramos com o seu colega de trabalho, que também era Radioamador o CT1PN (Pólo Norte) Nascimento, que era um alto Dirigente do RCP.
Foi um jantar memorável…eu um “puto xarila”, um Profissional da Rádio (Sonoplasta) e um Veterano do Radioamadorismo CT1PN.
Estava como peixe na água.!!!
Depois do jantar, o Eduardo Silva tinha de ir entrar ao serviço no RCP (Rádio Clube Português), pois ia fazer o turno da noite, das 23 horas ás 7 da manhã.
Despedimo-nos do CT1PN-Nascimento e o Eduardo, tal como tinha combinado, levou-me de táxi até aos Olivais Sul, fazendo questão em me entregar pessoalmente á porta de minha casa, para espanto do meu Pai.
Iniciamos então, uma grande e duradoura Amizade.
Ficou logo combinado que no sábado próximo, iria ter com ele ao RCP por volta das 20 horas, jantaríamos juntos, para depois fazer-mos a noite nos Estúdios do RCP até de manhã, o que me agradou imenso como deverão calcular.
Foi através do Eduardo Silva que conheci algumas figuras da nossa rádio, como por exemplo, Fialho Gouveia e Carlos Cruz do Programa “Pão com Manteiga”, Júlio Isidro e Ana Zanati no FM Stereo do RCP, que estava então a dar os primeiros passos, o “Sr. Messias” do Rádio Rural, José de Oliveira Cosme, Mery e Jesuina do Programa “A Vida é assim…”, Artur Agostinho no Desporto, Matos Maia no “Quando o telefone toca”, Os Parodiantes de Lisboa, o Jorge Moreira que era o noticiarista de serviço do RCP, etc…etc…etc.
Foram grandes os momentos de satisfação e alegria que senti, para além do conhecimento adquirido que me foi proporcionado pelo Eduardo Silva.
Quase todas as manhãs ou noites (consoante os turnos de trabalho do Eduardo ou meus) contactávamos através dos 144 MHz, onde fazíamos longos e amistosos QSO’s falando ora da propagação, ora de antenas, ora de rotores, ora ainda de FM que se começava a ouvir falar então em possíveis emissões nas bandas de amador.
Visitava frequentemente o Shack do Eduardo em Campolide, tendo-me a certa altura o CT1HQ oferecido um Medidor de SWR de fabrico Comercial.
Foi o primeiro medidor de estacionárias de fábrica, que tive no meu modesto shack e que ainda hoje guardo caprichosamente no meu QTH.
Foi também no seu Shack que conheci o Colega Jorge Araújo CT1AR, onde tinhamos uns QSO’s de metro a 100%.
Bons tempos que é sempre bom recordar.
E eis que….chegou o 25 de Abril de 1974
Após esta data, o “Rádio Clube Português… a Emissora da Liberdade”, não foi muito “Liberal” para o Eduardo Silva, que por motivos Políticos o afastaram a ele e a outros Colegas, porque não participavam nas manifestações organizadas pelos Sindicatos.
De notar que o Presidente do Sindicato era então um Colega do Eduardo Silva, funcionário do RCP.
Assim foi transferido da Rua Sampaio Pina em Lisboa, para as instalações do Centro Emissor, na Castanheira do Ribatejo.
Foi um duro golpe psicológico e físico para o CT1HQ-Eduardo Silva.
As longas viagens entre Campolide e Castanheira do Ribatejo, as noites sem descanso fora de casa, a revolta da situação que lhe foi criada, o excesso de tabaco, motivaram passado algum tempo a doença….uma daquelas que infelizmente o ser Humano ainda não conseguiu dominar e combater.
Ao Eduardo Silva, lhe devo todo o conhecimento que me proporcionou durante todo esse tempo que nunca irei esquecer, ficando sempre gravado na minha memória, a sua imagem, o seu sorriso simpático e cordial, a sua maneira muito própria de estar na Vida.
Onde quer que estejas, meu “sacrista” um grande e fraterno abraço do teu Amigo….Xico Zé…CT1DL.!!!

Preparado por:
Francisco Gonçalves
CT1DL
2008

RELEMBRANDO OS AMIGOS - CT1QA

CT1QA
Capitão Jaime Varela Santos

Hoje vou falar-vos de um Colega (infelizmente já falecido) com quem privei durante muito tempo e que me deixou imensas saudades. Era ele o meu Amigo CT1QA-Capitão Jaime Varela Santos, da cidade de Santarém.
A História da minha amizade pelo Capitão Jaime Varela Santos, começou era eu ainda um aprendiz de Radioamador, um miúdo de 18 anos, que estava a dar os primeiros passos no Radioamadorismo, primeiro como Rádio Escuta (SWL CT0334-1969/1970) e só então como Radioamador (CT1DL-1970).
A minha estação era muito modesta, composta por um receptor musiqueiro superheterodino da marca Hornyphon, um emissor de AM com 60 watts, de construção caseira ( 1 válvula 817 no andar final, 1 817 no modulador), um emissor de VHF de construção caseira com 20 watts de saída (usava uma QQE03/20), um conversor de VHF construção de CT1KQ, uma antena W3DZZ para HF e uma antena de 5 elementos (construção de CT1DL)tipo Yagi para os 144 MHz, como se dizia naquele tempo, uma estação que era uma autêntica “xafarica”.
As condições eram bastante limitadas, especialmente em recepção, visto possuir apenas um superheterodino a válvulas que havia lá por casa e que tinha servido para ouvir musica, os Parodiantes de Lisboa e os romances do TIDE.
Daí que um dia em QSO nos 40 metros com CT1QA, o meu Amigo Capitão Jaime Varela Santos me perguntou que tipo de receptor eu dispunha para onda curta, uma vez que trabalhava com emissor e receptor separados.
Disse-lhe então, que apenas possuía um receptor superheterodino, coisa que levou o CT1QA a ficar admirado devido ao facto de eu conseguir fazer tantos QSO’s especialmente em 40 e 80 metros.
No seguimento do QSO, o Capitão Varela Santos CT1QA, deu-me conhecimento que havia no mercado uns
Conversores da Geloso modelo G/…….que eram bastante fáceis de montar, uma vez que apenas necessitavam de alimentação de filamentos 6,3 VAC e + 250 VDC para alimentação das válvulas desse modulo.
O conversor tinha uma FI (Frequência Intermédia) de 1,5 MHz a 1,6 MHz logo portanto, servia perfeitamente para receber no meu velho receptor a válvulas, tornando assim o sistema de recepção numa clássica 3ª. Conversão, o que tornava a escuta mais selectiva e logicamente mais sensível.
Gostei da ideia….e passados dias fui até ao representante dessa marca (Geloso) ali para os lados da Avenida Almirante Reis em Lisboa, para saber o preço desse conversor.
-“ entrei….cheio de entusiasmo, sai…cheio de vontade de chorar…”.
Quando perguntei o preço do conversor, disseram-me que tinham, de o importar de Itália e que demorava cerca de 2 meses a chegar, o preço….uma pequena fortuna ( 7.000$00 ) para quem tinha um ordenado de 2.000$00 por mês (…lembro-vos que estávamos nos anos 70’s e a vida era outra…).
Passados uns dias, voltei a contactar o CT1QA nos 40 metros e quis dar-lhe noticias dos últimos acontecimentos.
O CT1QA-Capitão Varela Santos, depois de eu lhe ter explicado a minha angustia relativamente ao preço do conversor, rematou assim: “….olhe meu Caro Gonçalves, não se apoquente com isso….talvez se consiga por aqui remediar a situação….deixe lá ver…”.
Fiquei um pouco confuso, mas….não quis aborrecer mais o CT1QA com aquela história do conversor de HF e de não ter disponibilidade financeira para o adquirir.
Continuámos a falar frequentemente nos 40 metros, sem nunca mais falarmos da “porcaria.???” do conversor da Geloso que eu já tinha retirado da minha ideia.
Até que um dia….surgiu o que me levou a escrever esta história:
Era sábado de manhã, fiz a minha habitual pré-escuta ( como era norma daqueles tempos…) aos 40 metros e lá estava o CT1QA em QSO com outro colega, creio que o CT1PK … Dr. Fragoso de Almeida da Cidade do Cartaxo.
Fiz-me presente, tendo sido logo atendido de imediato com a gentileza e a educação que caracterizavam o CT1QA (…sem desprimor para outros Colegas…).
Ali ficámos durante algum tempo em amena cavaqueira, até que chegava a hora de nos despedir-mos, visto serem quase horas de almoço.
Foi então que o CT1QA me perguntou: - “Meu Caro Gonçalves, diga-me por favor se na próxima 2ª. Feira está aí pelo QTH de seus Pais, durante a parte da manhã.???...).
Respondi afirmativamente, tendo sido combinado então que o CT1QA, uma vez que tinha de viajar até Lisboa no Domingo a seguir, permanecendo na Capital até á próxima 4ª. Feira.
O Capitão tinha na altura um apartamento em Lisboa, na zona do Pote de Água, onde operava a sua estação de Amador com o indicativo de CT1CR.
Aproveitou a sua deslocação para me fazer uma visita o que achei uma óptimo a ideia, uma vez que não nos conhecíamos pessoalmente embora já nos conhecêssemos da Rádio fazia algum tempo.
Na 2ª. Feira seguinte, por volta das 11 horas da manhã bateram á porta de minha casa, e a minha Mãe veio chamar-me ao meu shack, onde estava na altura em QSO nos 144 MHz com o Colega Antunes CT1CO, que ensaiava um pré-amplificador de RX para os 144 MHz a Mosfet´s, coisa rara naquela época.
Dirigi-me á porta…e deparei-me com um Senhor alto, de cabelo branco, corpo atlético e que me pareceu rondar a casa dos 60’s e alguns anos de idade.
Como é normal, seguiram-se as apresentações formais, tendo desde logo verificado que aquele Colega tinha algo de diferente dos Colegas que tinha conhecido até então (…não me levem a mal ….por favor, mas são coisas de putos daquela altura…hi…hi…hi….).
A maneira de falar era doce, melodiosa, calma, cordial, afável, simpática e duma educação extrema.
Parecia-me até que media as palavras antecipadamente antes de as proferir.
O Capitão trazia na mão um pequeno pacote, que fez questão de me entregar dizendo:
- “…meu Caro Gonçalves, tem aqui uma coisa que lhe quero oferecer, uma vez que a si lhe vai dar muito jeito e a mim não me faz falta alguma…”.
Fiquei admirado com a oferta, tendo o Capitão Varela Santos feito questão em que eu desembrulhasse o pacote e visse o que ele continha.
Abri-o…com as mãos trémulas de nervoso.
Deparei-me com uma caixa em cartão que dizia por fora, Convertitore Geloso G/……
Fiquei para morrer de espanto, enquanto olhava para a cara do Capitão Jaime Varela Santos CT1QA e via a sua expressão de alegria e admiração pela reacção que eu tinha tido quando abri o pacote que ele me tinha entregue.
Era um sonho…que eu não esperava ver realizado tão depressa.
O Capitão deu-me então, todas as explicações e pormenores para a montagem do conversor, levando em linha de conta, a minha falta de conhecimentos e experiência nesse campo.
Eu não cabia em mim de contente….pois nunca me passaria pela cabeça que visse realizado um sonho que pensava já ter sido impossível de realizar.
Passados alguns dias, já o meu conversor estava a trabalhar, depois de ter tido a ajuda de outros colegas, que me disponibilizaram alguns componentes para a fonte de alimentação, que era preciso construir.
E trabalhava muitíssimo bem, agora sim….tinha uma recepção maravilhosa, estável, selectiva, com uma sensibilidade que nada tinha a ver com o meu modesto receptor musiqueiro.
A moral desta história e que quis partilhar convosco, tem a ver com a maneira de estar que os Radioamadores de outros tempos tinham em relação á entreajuda, ao auxilio, ao acompanhamento dos Radioamadores mais novos, emendando-os nas suas atitudes, chamando-lhes á atenção quando se tornava necessário se alguma coisa estava menos bem.
Sem querer….estávamos numa Escola diáriamente, cada vez que ligávamos o nosso rádio, onde todos aprendíamos e nunca achávamos que já sabíamos tudo.!!!!
Quem conheceu mais de perto, ou quem alguma vez escutou na Rádio o CT1QA-Capitão Jaime Varela Santos, certamente achará que aquilo que aqui estou a relatar relativamente á sua postura, á sua educação, á sua cordialidade, á sua capacidade Técnica, ao seu poder inventivo….é muito pouco….é muito modesto…é infimo.
Para os menos conhecedores da Vida e Creatividade do CT1QA, deixo-vos aqui só algumas notas breves sobre a sua Obra:
- Capitão de Cavalaria na Reserva.
- Chefe do Posto da GNR de Setúbal.
- Dirigente da REP-Rede dos Emissores Portugueses
- Construiu totalmente todo o equipamento de Emissão, recepção, antenas, equipamento de áudio e gravação da Rádio Ribatejo em Santarém, do qual era proprietário.
- A Rádio era “a menina dos seus olhos”.
- Falava fluentemente Inglês, Francês e Castelhano.
- Lançou na Vida artística alguns Artistas ainda hoje conhecidos( para os mais velhos….claro…), tais como António Mourão, Vasco Rafael e outros.
- Era Pai da primeira locutora que a RTP teve nos anos 50’s, a Maria Helena (mais tarde Maria Helena Fialho Gouveia).
- Passaram pela Rádio Ribatejo alguns locutores também conhecidos daquela época, Fialho Gouveia, António Sala, Matos Maia, Júlio Isidro, etc.
Mas acima de tudo era um Radioamador exemplar, arrisco-me mesmo a dizer, que nunca ninguém deve ter ouvido da boca do CT1QA, uma palavra agressiva, um comentário despropositado, um mau aconselhamento.
O 25 de Abril, veio fazer desmoronar os objectivos da Rádio Ribatejo, os interesses Comerciais começaram a fazer-se sentir, a pressão, o poder do monopólio, a Politica.
O Capitão Jaime Varela Santos foi uma das grandes vitimas dessa época um tanto ou quanto conturbada e pouco coerente, em que prevalecia apenas e só a força ( ficticia) de quem mandava.
O resultado foi catastrófico….a Rádio Ribatejo acabou por ruir como um castelo de areia, desmoronava-se um sonho de tantos anos, uma Vida de dedicação e afecto a uma única causa….A RÁDIO RIBATEJO em Santarém.
Trabalhava em Onda Média por volta dos 1000 e tantos Kilohertz, e lembrar-se-ão alguns do seu “gingle” de abertura: “ musica do fandango ribatejano, depois:- daqui Rádio Ribatejo em Santarém, a transmitir desde os seus estúdios nas Portas do Sol em Santarém…”.
O CT1QA veio a falecer sem que eu tivesse tido conhecimento originando em mim uma mágoa avassaladora que ainda hoje não consegui ultrapassar, pois tinha grande admiração e respeito pela sua pessoa.
Assim acabou um sonho, assim acabou uma Vida que foi dedicada intensamente a uma única causa, a de servir a população do Ribatejo ( lembrem-se… que estávamos nos anos 60/70).
Como nota final, quero aqui deixar expresso o meu desalento e tristeza, pela maneira como já na parte final da sua Vida, o CT1QA foi tratado por alguns Radioamadores que naquela época “habitavam” os 40 metros, banda onde o Capitão passava algumas horas do dia em QSO’s com o nosso Querido Amigo Mário Portugal – CT1DT.
Foi psicologicamente maltratado, insultado, talvez porque a ignorância do ser Humano funciona assim, esquecendo-se certamente que do outro lado estava um HOMEM e não mais um, dos muitos que por aí “habitam” no Radioamadorismo.
Certamente… que se conhecessem melhor, a sua Obra e a sua Vida de Radioamador e de HOMEM, não teriam sequer a coragem de contribuír para a destruição moral e psicológica, da sua pessoa, fazendo com que nem sequer aquilo que o CT1QA gostava de fazer na Vida, lhe desse alegria e Paz de Espírito bem merecidos.
Hoje….infelizmente…já ninguém se lembra deste nome, mas… eu nunca poderei esquecer este HOMEM que marcou a minha Vida de Radioamador, pedindo a todos os Radioamadores daquela época, que se juntem a mim e em conjunto…façamos uma Vénia de Gratidão ao:

CT1QA-Capitão Jaime Varela Santos

Francisco Gonçalves
CT1DL
2008

RELEMBRANDO OS AMIGOS - QSO DOS TIPICOS

CT1FI / CT1CC / CT1OZ, CT1UF, CT1DJ, CT1ST
( QSO dos Típicos)

Hoje quero partilhar convosco, a História de como vim para o Mundo do Radioamadorismo.!!!
Eram decorridos os Anos 60’s, tinha aproximadamente 15-16 anos, morava em Alverca do Ribatejo com os meus Pais e tudo aconteceu mais ....ou menos assim.

Numa tarde quente de Verão, lembrei-me de ligar o velho receptor musiqueiro (Hornyphon a válvulas, que tinha ligada uma antena de fio com cerca de 10 metros de comprimento, colocada na varanda) que havia lá em casa, servindo simultaneamente para ouvir musica, bem como para minha própria diversão.
Após ter “vasculhado” a banda de Onda Média de uma ponta á outra sem que alguma coisa me despertasse interesse, resolvi (e em boa hora o fiz…) carregar numa tecla que o rádio tinha que dizia “SW-2” o que permitiu que pudesse escutar frequências dos 4,8 MHz aos 8 MHz em AM (Amplitude modulada).
Nesta viagem, muito lenta do ponteiro, através do quadrante do receptor….deparei-me com uma comunicação (local do quadrante que estava sublinhado e dizia 40 metros) …coisa bastante esquisita para os meus ouvidos de “miúdo”…:
- “…olha lá…oh… Coca-Cola…diz ao Obra Zincada, que logo por volta das 8 da noite, vou aos 80 metros e falamos melhor…porque eu agora tenho de ir para o batente …tenho o meu pessoal a fazer a vindima…73’s …daqui Cê…Tê…Um…França Itália, que fica em QRT “.
Os meus olhos… iam saindo das orbitas…e a minha boca deve ter ficado tão aberta, que se deveria ver o estômago…no mínimo.!!!
“Hé…Lecas…Obra Zincada…Coca-Cola…80 metros…73’s… Batente… QRT… França Itália…Fazer a vindima”…
Mas isto não ficou por aqui…!!!
Qual não foi o meu espanto, quando comecei a ouvir também, ali no altifalante do receptor, um tal “Coca-Cola” que se chamava Augusto e morava em Lisboa….
Aquilo era muito movimento para a minha “pobre” cabeça, que estava apenas habituada a ouvir no rádio musiqueiro, os “Parodiantes de Lisboa” no Rádio Clube Português, o “Quando o Telefone Toca” na Rádio Graça e Rádio Clube Português, as “As Aventuras dos Cinco” na Emissora Nacional, o Futebol….e de repente…pimba…. estava gerada a confusão….
Mas que raio… seria aquilo afinal.???
Fiquei sem resposta, uma vez que os intervenientes não voltaram a aparecer….silencio absoluto..!!!
Isto fez com que ficasse mais confuso ainda, o que me levou a andar o resto da tarde a pensar no assunto sem dizer nada a ninguém lá em casa.
Entretanto…duas coisas me ficaram retidas na memória (…talvez pelo seu tamanho…hi..hi..hi..) 80 metros e 8 da noite.!!!
As 8 da noite…estava decifrado o enigma, restava-me então saber o que era aquela “medida” dos 80 metros.!!!
Sentei-me no sofá da sala e olhava prolongadamente para o velho receptor, que continuava ligado…talvez á espera que voltasse a ouvir mais alguma coisa que me desse alguma pista, mas….nada….silencio a mais silencio.
Bom….vou desligar o receptor, vou apanhar um pouco de ar, para ver se arrumo as ideias.
Mas….passado pouco tempo, já estava de volta a casa e em frente ao receptor, ligando-o logo de imediato na esperança de que pudesse escutar mais alguma pista para a resolução do enigma.
Continuava tudo mudo e silencioso…lembrei-me então de rodar muito devagarinho o botão de sintonia mais para cima e comecei a ouvir outras coisas muito esquisitas….pessoas a falarem com o mesmo tipo de conversas dos anteriores, mas desta vez em qualquer coisa que me parecia Espanhol.
Lá estavam os QRA’s…os 73’s…etc…etc…
Bem….isto está-se a compor, pensei eu.!!!
Continuei a minha viagem pelo quadrante do receptor, até que parei…ao escutar outra conversa esquisita, desta vez em Português.
“Chamada geral….chamada geral…chamada geral…Cê Tê Um Uruguai França chama em geral…Cê Tê Um Uruguai França chamou em geral e passa á escuta…cambio…cambio….
Algum silencio e…..”alô… Cê Tê Um Uruguai França… colega Vilar…daqui Cê Tê Um Zê Bê, aqui pela Figueira da Foz que responde á sua chamada geral e escuta…”
E dali para a frente, foi travada uma conversa entre dois indivíduos que lá iam passando a palavra um ao outro sempre utilizando aquelas coisas “meio parvas” dos QRA’s….QTH’s…QRX’s…um deles vejam lá que até disse, que estavam a transmitir com uma 807 no final, modulada por outra 807…. e a antena era uma “Maria Maluca” …..sinceramente…que coisa mais estúpida meu Deus.!!!
O outro para não se ficar a trás disse-lhe: “…Oh….Vilar…por aqui a minha antena é uma Li-Li com trepes…”
Já só me faltava mais esta…”que mal tinha eu feito a Deus para merecer tal coisa….pensei.???”
E aquilo durou….durou…até que: “Oh…Vasco Aguas…quero-lhe pedir autorização para ficar em QRT…pois tenho de ir ás Vitaminas, mas…logo estou nos 80 metros no QSO dos “Típicos…OK.??”
O dia estava a ser complicado demais para mim… eu não merecia tanta confusão….
Aquela coisa devia ser muito importante, pois o tal Vilar, pediu autorização para ficar em QRT.
Olha…pensei eu, “…mais um que vai logo aos 80 metros”.!!!
Eh…Pá…mas que raio, seria aquilo dos 80 metros.???
Chegada a hora do jantar, despachei-me o mais rápido que pude, para voltar a ligar o receptor na esperança de saber onde é que aquela malta toda se ia encontrar, nos tais 80 metros.
Coloquei-me então deitado no chão, mesmo de frente para o receptor que estava numa prateleira de um móvel estante onde entre outras coisas também tinha uma televisão a preto e branco da Philips, que naquele tempo era um luxo.
Mirei calmamente o quadrante do receptor todo… de uma ponta á outra.
Até que…qual não é o meu espanto, dou de caras com um local do quadrante que dizia: 80 MT
Espera lá, pensei eu…já estou no caminho certo, querem ver ???
Vi então, que para lá chegar, tinha de seleccionar outra tecla do rádio que dizia SW1.
As minhas mãos tremiam de nervos…tudo a postos….e lá vamos nós.!!!
Rodei o botão de sintonia muito devagar e….Bingo…” Óh…Coca-Cola…o Óh Zê… andou á tua procura, daqui Cê Tê um Dê Jóta…”
Finalmente lá estavam eles…aquilo estava a ser giro, só que as conversas não me diziam nada, pois achava tudo muito esquisito, principalmente a forma como eles falavam uns com os outros.

Usavam palavras que me faziam muita confusão.!!!
Ali me mantive até cerca das 10 da noite, altura em que fui advertido pela minha Mãe que queria ir ver Televisão e não queria ali barulho da “telefonia” pois iam dar um programa de Variedades que era apresentado pelo Jorge Alves, com a Simone de Oliveira e o António Calvário (estávamos nos Anos 60’s…).
Tive de desligar tudo e fazer companhia á Família (que remédio…pois…).
Estava a ver a TV, mas a minha ideia estava fixa no quadrante do rádio que estava ali mesmo á minha frente…apagado.
Fui para a cama, mas…o meu pensamento ia sempre dar ao que me tinha acontecido durante todo aquele dia…até que, finalmente adormeci.
No dia seguinte logo de manhã lá estava eu outra vez…mas não estava a ouvir nada…silencio apenas.
Bom os “tipos” ainda devem de estar a dormir, pensei.
O tempo foi passando e nada…continuava o silencio.
Que raio…ontem estavam aqui tanta pessoal a falar agora não se ouve ninguém.???
Estava a começar mal o dia outra vez.!!!
Foi então que me ocorreu que no dia anterior tinha escutado aqueles indivíduos no tal sítio que dizia 40 MT .
Lá fui colocar o ponteiro no local indicado assim como mudar a tecla duma coisa que dizia BAND para SW2, mas….nada…não escutava ninguém, apenas outras pessoas mas numa língua que me era desconhecida.
Foi uma desilusão…não havia por ali nenhum daqueles “maduros” que andavam a falar em coisas meio esquisitas e que eu não percebia nada…
Por volta da hora de almoço…já a minha Mãe andava a desconfiar de tanta permanência minha ao pé da “telefonia” que me advertiu…”estraga-me a telefonia estraga…que o teu Pai depois fala contigo….não fazes outra coisa desde ontem que é andares a “sarranfonar” a telefonia toda para trás e para a frente…”.
Após o almoço…adivinhem lá vocês o que é que fui fazer.???
Exactamente….nem mais nem menos e para não variar, ligar a “telefonia” como lhe chamava a minha Mãe.
Qual não foi o meu espanto quando começo a escutar logo o tal senhor Coca-Cola, depois o Obra Zincada, o França Itália e ainda um novo que ainda nunca tinha escutado que era o Santiago Turquia.
Este ultimo era giro….pois escutava-se volta não volta um relógio de carrilhão a tocar bem alto….Tom….tom…..tom…
Do outro lado diziam “Oh…Abilio o relógio está atrasado pá…tens de levar isso ao relejoeiro…”
Comecei então já a conhecer pela voz alguns dos intervenientes naquelas conversas.
E assim andei,durante algum tempo, ora nos 40 MT ora nos 80 MT, sem nunca perceber muito bem o que era aquilo tudo, até porque ás vezes ouvia os mais crescidos falarem lá em casa dos “gaijos” que eram da PIDE ou lá o que era…e que eram maus como oh “caraças”….pois se soubessem que as pessoas escutavam nas “telefonias” uma coisa que era a Rádio Moscovo eram “engaioladas” e nunca mais apareciam ….daí eu nunca ter falado em nada ao meu Pai, com medo de levar uma tareia.
Mas um dia mais tarde, em conversa com o senhor Manuel, que era empregado do cinema ambulante lá da Terra, que se interessava muito pela rádio e que um dia me ensinou a fazer uma galena.
Contei-lhe tudo…embora com medo, pois não fosse ele ser dos “macacos” da tal PIDE ou que raio era aquilo.
Foi então que o Sr. Manuel me disse, depois de escutar tudo atentamente, que as conversas que eu escutava na “telefonia” deviam de ser uns tipos meio malucos que tinham uns emissores e receptores lá em casa, que falavam uns com os outros por todo o Mundo….eram salvo erro os RADIOAMADORES….disse-me o Sr. Manuel.
Aquilo fez-me uma grande confusão…uns “tipos com rádios lá em casa e falavam uns para os outros.???? “
Lá fui de novo para casa, sempre a pensar naquilo que o Sr. Manuel me tinha dito.
Comecei então a imaginar, qual não seria o prazer e a sensação que deveria causar, ter um emissor em casa e poder falar com outros Amigos espalhados pelo Mundo inteiro.
E assim passei algum tempo, ouvindo as tais conversas entre aqueles tais denominados Radioamadores, até que....uma bela noite, chegou a oportunidade que eu fazia algum tempo desejava.
Estava o tal Obra Zincada a falar com o França Itália e perguntou-lhe a morada para lhe enviar um coisa esquisita que era um QSL de um Radioescuta....qualquer coisa SWL não sei das quantas.!!!
O França Itália lá lhe deu a direcção dele e eu aproveitei logo para a anotar cuidadosamente.
Achei que tinha chegado a oportunidade de poder esclarecer algumas duvidas que tinha relativamente aos tais Radioamadores e toda aquela confusão dos Obras Zincadas, Coca-Colas...etc...etc...
No dia seguinte...peguei numa folha de carta e escrevi ao tal Amador França Itália, que estava situado no Peso da Régua, no Norte de Portugal.
Contei-lhe resumidamente a minha história, que os escutava frequentemente, a confusão que pairava na minha cabeça sobre aqueles “palavrões” todos que eles diziam e rematava com a celebre frase:
- ”como é que eu posso vir a ser um Radioamador.???”
Coloquei um selo de dez tostões no envelope, coloquei-lhe a carta dentro, fechei-a e lá fui colocar a dita no marco de correio que distava da minha casa umas centenas de metros.
A partir daquele momento, comecei a contar as horas e os dias que iria demorar a obter resposta ás minhas questões, isto se o tal Amador me desse resposta .!!!
Passaram-se uns dias, uma semana e nada....resposta nem vê-la.
Entretanto, para minha satisfação, estava uma noite no meu posto de escuta nos tais 80MT e imaginem qual não foi o meu espanto, quando ouvi o Sr.Vasco Osório do Peso da Régua, que se dizia ser o Cê Tê Um França Itália, referir ao Cê Tê Um Coca-Cola, que tinha recebido uma carta de um rapazinho de Alverca do Ribatejo que costumava ouvir os QSO’s que eles tinham todos os dias ou nos 40 ou nos 80 Metros....
Fiquei para morrer de espanto, mas também de alegria, pois tinha tido a confirmação que a carta tinha chegado ao destino.
Fiquei a aguardar então a chegada da resposta, o que só veio a acontecer, passados uns bons 15 dias.
Quando finalmente recebi na caixa do correio a carta do CT1FI....as minhas mãos tremiam como varas verdes.
Tremulamente...abri o envelope e comecei a ler as noticias que o Sr.Vasco Osório me estava a dar, pois a minha curiosidade era mais que muita... como devem calcular.
O Sr.Vasco Osório, muito gentil e cordial explicou-me algumas coisas que lhe tinha perguntado, entre elas, disse-me que era produtor de Vinho do Porto, tinha as suas Terras de vinha na Região demarcada do Douro e vivia com a Familia no Peso da Régua fazia muito tempo.
Depois de muitas considerações, remeteu-me para um Colega Radioamador que era aqui de Lisboa, dizendo-me que ele me daria todas as informações de como deveria proceder para poder vir a ser Radioamador.
Nem eu sonhava... quem era o tal Radioamador que ele me estava a indicar, uma vez que me deu apenas a morada e disse-me para quando lá chegasse, perguntasse pelo Sr.Augusto.
Por ironia do destino...neste espaço de tempo os meus Pais e eu claro, mudámo-nos para uma nova casa nos Olivais Sul, ali perto do agora Olivais Shopping.
Andei uns quantos dias a pensar, se iria ou não ao tal encontro que me estavam a propor, pois eu era um “puto” e tinha receio que o tal Senhor Augusto que eu desconhecia, não aceitasse bem a minha presença e o meu pedido de ajuda.
Mas....como agora estava em Lisboa e o local de encontro proposto era também em Lisboa, mais propriamente no Chiado (Ourivesaria Aliança), enchi-me de coragem....e.....lá vou eu ....sem saber para o que ia.
Ao chegar ao local indicado, hesitei... se deveria de entrar ou não.
Fingi estar a olhar para dentro da montra, onde estavam expostos relógios, Jóias, Pulseiras, Fios de Ouro e diversas peças de Ouro e Prata, mas...a minha intenção era ver se descobria alguém com o tipo de ser o tal Sr.Augusto, mas...apenas via uma Senhora já de idade ao balcão.
Pensei...bom tem de ser...um...dois...três.....lá vou eu.!!!!
Abri a porta....dirigi-me á Senhora do balcão e disse: “...boa tarde minha Senhora...por acaso poderei falar com o Senhor Augusto...por favor.???”
A Senhora olhou para mim com ternura e disse-me: “...está sim menino..um momento por favor...vou chamá-lo...”
Passado um momento apareceu um Senhor baixinho, magro, calvo, de óculos, com pronúncia do Norte e muito simpático.
Estendeu-me a mão...e dizendo-me: “...deve de ser o Francisco José, não é.???... eu sou o Augusto Ferreira, Cê Tê Um Coca-Cola ou Corrente Continua...como queira.”
Fiquei colado ao chão, com a boca seca, sem poder articular uma única sílaba.
Aquele era então... o tal “Coca-Cola” em pessoa, que eu ouvia na minha “telefonia”.
Mas... pela vóz ...ele parecia um trovão a falar ...e ali ao pé de mim, tinha uma figura tão frágil e simpática, que eu nunca imaginaria...
E ali ficámos... frente a frente durante alguns minutos, tendo o Sr.Augusto Ferreira (Coca-Cola) esclarecido todas as minhas duvidas, aconselhando-me então a ir á Sede da REP-Rede dos Emissores Portugueses, na Rua D.Pedro V-Nº.7-4º. Andar em Lisboa, onde poderia associar-me e poder depois, pedir o indicativo de Radioescuta (SWL), podendo assim durante dois anos, preparar-me para o exame de Radioamador.
Assim aconteceu...passado dois anos propus-me ao exame da classe E, fiquei aprovado no mesmo e algum tempo depois, tive a Felicidade de poder contactar pessoalmente via rádio com todos aqueles Amigos que tinha escutado durante tanto tempo na minha “telefonia” os tais fulanos que: “ deviam de ser uns tipos meio malucos que tinham uns emissores e receptores lá em casa, que falavam uns com os outros por todo o Mundo…eram salvo erro os RADIOAMADORES….”



Francisco Gonçalves
CT1DL
2009

RELEMBRANDO OS AMIGOS - CT1KQ

CT1KQ

Jorge Costa e Silva

Hoje vou-vos falar de um Colega, já falecido faz alguns anos e que marcou muito, a minha Vida de Radioamador, já lá vão uns bons 40 anos.
Certamente poucos ou mesmo nenhum dos Colegas mais recentes deveriam ter ouvido falar ou até mesmo escutado este indicativo, CT1KQ .!!!!
Era o Colega Jorge Costa e Silva, e morava Rua Sousa Viterbo, ali para os lados da Penha de França (Alto de S.João) em Lisboa.
Na altura, tinha eu os meus 17 anos, já o Colega Jorge CT1KQ teria uns bons 60’entas e tantos anos de idade.
Era uma figura carismática, bem disposto, bem falante, simpático, bonacheirão, gostava de brincar com as palavras, Amigo do Amigo e sempre pronto a ajudar algum Colega que como eu, estava a dar os primeiros passos no Radioamadorismo.
Profissionalmente o Colega Jorge CT1KQ era Técnico de Televisão, ainda no tempo da TV a preto e branco.
Trabalhava numa conceituada Empresa de Reparações de TV e HI-FI em Lisboa, sediada ali para a zona do Saldanha.
Todos os dias fazia o percurso a pé, desde sua casa na Penha de França, até ao local onde trabalhava, coisa de que se vangloriava frequentemente.
E era obra…para um Homem daquela idade.!!!
Naquele tempo, não estavam na moda os Ginásios, nem as pessoas tinham tempo ( $$$$$$$ ) para essas modernices.!!!
Trabalhava exclusivamente nas frequências altas VHF, mais própriamente nos 144 MHZ, ainda nos tempos do velho AM (Amplitude Modulada), com equipamentos totalmente por si construídos.
Ele era um Icon daquela época Gloriosa da Banda dos 2 metros.
Costumava dizer-se: “se não se escutasse o CT1KQ não se escutava mais ninguém…”
É que o Jorge CT1KQ, trabalhava já naquele tempo, com 2 válvulas QQE06/40 que debitavam cerca de 120 Watts de RF para a antena, com a particularidade de estar numa situação geográfica bastante favorável.
Um dia, após um longo QSO nos 144.180 MHz (era a minha frequência de emissão na banda dos 2 metros ) com o Colega CT1KQ, fui convidado por ele para fazer uma visita ao seu QTH em Lisboa, convite que aceitei com imenso agrado uma vez que era “novato” e apenas conhecia dois “Shack’s” de Radioamadores que eram meus Amigos e vizinhos (na altura eu morava nos Olivais Sul ali perto do agora Olivais Shopping ), o CT1XI-Mariano Gonçalves, que morava perto de mim e o CT1ZX-Rui Penaguião / Carlos Ladeiras 2º.Operador de CT1ZX, agora CT1QP, que moravam em Moscavide.
E num belo sábado de Verão, meti pés ao caminho, apanhei o Autocarro da Carris Nº. 19 dos Olivais para a Praça do Chile e lá fui eu a caminho de uma Grande Aventura, que nunca mais esquecerei.
Com muito custo lá dei com a morada do CT1KQ, pois andei um pouco perdido pelas imediações, visto não ter tido o cuidado de perguntar a alguém onde se situava a dita Rua, mas finalmente lá dei com a morada certa.
Subi ao 2º. Andar do antigo e imponente edifício, característico das construções daquela época, pois havia então muito espaço para construção e não se olhavam a custos por metro quadrado.
Com um certo receio…respirei fundo…engoli em seco…e toquei á campainha.!!!
Ouvi lá ao longe passos…uma vóz feminina balbuciou: “…só um momento, por favor…”.
A porta abriu-se…e uma Senhora de cabelos brancos com uma cara muito simpática e sorridente disse-me: “ …é o Sr. Gonçalves o CT1DL não é..??? …pode entrar…o meu Marido está lá dentro á sua espera, ele está a falar com outro Colega Radioamador, creio que é o Sr. Antunes CT1CO “.
Lá fui entrando, guiado pela bondosa e simpática senhora, que ficou muito admirada por eu ser muito jovem, fazendo-lhe lembrar um filho dela, que tinha partido para o Brasil fazia alguns anos e que era muito parecido comigo, afirmou com uma “lagriminha” no canto do olho, enquanto me afagava os cabelos e me acariciava o rosto.
Mais tarde, vim a saber da história, que o CT1KQ me contou.
Cheguei então a uma marquise enorme, toda envidraçada, ampla, bem arejada e ensolarada.
E lá estava ele…ao fundo, de pijama de flanela ao xadrês e de chinelos de quarto, junto a uma coisa enorme, que mais parecia um armário, e falar para um microfone que eu não via.!!!
Que coisa mais esquisita pensei eu.!!!
O Colega Jorge, passou então a palavra ao Colega CT1CO com quem estava a falar, despedindo-se dando-lhe conta da minha presença na sua casa, dizendo que iria ficar em QRT por algum tempo.
Ali fiquei eu….em frente aquela figura simpática e bem disposta que dava pelo Nome de Jorge e era conhecido por CT1KQ.
Feitas as apresentações, começamos a falar daquilo que me tinha levado ali, o Radioamadorismo.
E então, começaram as explicações pormenorizadas de todo aquele amontoado de equipamentos que estavam á minha frente.
“Olhe…Gonçalves, isto aqui é um Rack que eu construí para suportar todos os andares do meu emissor e receptor de VHF”.
Aqui em cima, fica o amplificador de RF com duas QQE06/40, por baixo está o emissor e excitador que tem uma QQE03/20 na saída, mais abaixo está o modulador de áudio, aqui por baixo o receptor que é um receptor de onda curta de tripla conversão, adicionado a um conversor de 144MHz/10 MHz (…não confundir com 10 metros…) e finalmente por baixo a fonte de alimentação para todos os módulos.
O microfone está aqui escondido, porque ele é muito bisbilhoteiro e capta todos os ruídos que estão á sua volta, por isso fica ali atrás de castigo.
Estava finalmente, desvendado o mistério do CT1KQ ter estado a falar, sem eu ter visto o microfone.
Todas estas explicações, foram acompanhadas da retirada integral de todos os módulos que compunham todo o Rack, assim como de uma breve explicação do seu funcionamento.
A minha alma estava parva.!!!
Curioso, era o facto de o Rack estar protegido em toda a sua altura e largura lateralmente e atrás, por rede de “galinheiro” de malha larga, que segundo o Colega Jorge, servia de blindagem á RF.
Noutro local da marquise, estava uma bancada com um torno, algumas peças de ferramenta, como serrotes de ferro, limas, berbequim manual, brocas, punções, etc…etc.
É que o Colega Jorge CT1KQ, espantem-se as nossas almas, fazia os transformadores de alimentação e de modulação, á mão.!!!
Eu disse… á mão.!!!
Vou explicar um pouco melhor.!!!
Ele comprava a chapa de ferro adequada ás circunstâncias, calculava as dimensões das chapas “E” e “I” e cortava uma a uma as chapas correspondentes, bem como as furacões para a fixação do transformador.
Depois seguia-se o enrolamento e o seu isolamento exterior com verniz por causa das humidades e vibrações.
Eu vi…eu vi alguns desses transformadores ainda a funcionar, bem como outra habilidade que CT1KQ fazia, que era a construção de condensadores variáveis de baixa capacidade ( na ordem dos 2 @ 10 pf ) que era muito difícil de encontrar no mercado Nacional de então.
Aproveitava a carcaça de um condensador variável de um musiqueiro a válvulas e cortava com uma tesoura de chapa, as meias luas fixas e móveis que iriam constituir o condensador desejado.
Era um regalo para a vista e para a imaginação do Amador daqueles tempos.
Naquele tempo, haviam verdadeiros artista manuais na construção de componentes dos quais não era fácil encontrar no mercado, obrigando-os assim a pôr a imaginação e a creactividade a toda a prova.
Ao fundo uma zona dedicada á arrumação de peças de rádio, componentes, válvulas, condensadores, resistências, aparelhos de medida, cabos, etc.
Como estava uma tarde convidativa de Sol, fomos até ao quintal, que ficava em frente á marquise.
Curioso o facto de um 2º. Andar ter quintal, não é.???
Mas era verdade mesmo… o 2º.andar ficava construído num terreno, onde na sua direcção ficava um quintal cimentado e com uma passerele que dava para uma outra zona mais ampla, onde o Colega Jorge CT1KQ tinha aproveitado para montar e experimentar as suas antenas.
Comecei a olhar e vi pela primeira vez, uma coisa meio esquisita que mais parecia duas estruturas de um papagaio de lançar ao vento, mas um em frente ao outro, suportado por um tubo de plástico grosso.!!!
- “ Cum escafandro….pensei eu “.
Oh…Colega Jorge, para que serve aquela coisa tão esquisita que tem ali.???
O CT1KQ…começou a rir á força toda pela minha admiração…
-”É a minha antena cubica de quadro para ver a TVE do canal 4 de Guadalcanal em Espanha.!!!”
Estávamos então no ano de 1970, não havia TV Cabo, Net Cabo, Cabovisão… era tudo em directo e a Preto e Branco.
Ao lado…um mastro com uns bons 6 metros de altura e lá no alto reparei noutra coisa que me despertou a atenção que era uma caixa toda em ferro, pintada de preto donde saiam alguns cabos que iam ligar a uma antena de 7 elementos tipo Yagi, feita com varões de alumínio e montada num tubo de plástico branco muito grosso.
Tive de satisfazer de novo a minha curiosidade e lancei a “bisca” ao Colega CT1KQ: - Oh Colega Jorge, que antena é aquela ali em cima e aquela caixa preta para que serve.???
Nova risada de satisfação….pelas questões que eu lhe ia colocando, naturais de um “puto” que estava a dar os primeiros passos no Radioamadorismo.!!!
-“Olhe oh Gonçalves, aquela caixa preta, é um rotor de construção caseira, que serve para rodar aquela antena de VHF que ali está e que utilizo para falar para o Norte de Portugal e Espanha”.
Lembrem-se que naquela época não havia Repetidores, nem FM, nem sequer equipamentos de Fábrica, era tudo feito á mão com os “cangalhos Box” parafraseando o nosso Querido CT1DT-Mário Portugal.
Todos os dias ao final da tarde e á noite após o jantar, lá estava o CT1KQ a chamar pelos seus correspondentes habituais daquela altura na banda dos 2 metros.
Eram eles entre outros, CT1PI - Ovar, CT1LG – Ovar, CT1AXY – Porto, CT1ZB – Figueira da Foz, CT1AS – Figueira da Foz, CT1BT – Évora, EA4AU - Badajoz, EA4CY – Madrid, entre outros que não me recordo, já lá vão tantos anos.!!!!
De notar que estes QSO eram feitos em AM (Amplitude Modulada ) e em directo, pois como atrás referi não se falava sequer em repetidores, nem em FM (Frequência Modulada) antenas verticais, etc…etc.
Na altura os emissores utilizavam XTAIS de 8 MHz, que depois eram triplicados por um andar amplificador para 24 MHz, depois triplicados para 72 MHz e finalmente dobrados para 144 MHz. Recordo-me ainda, que o meu XTAL era de 8.010 MHz que dava a frequência final de 144.180 MHz.
Era muito giro.!!!!
Então, passados alguns tempos, haviam já muitos Radioamadores que começaram a utilizar equipamentos de fábrica com VFO’s comuns a Emissão e Recepção que foi o meu caso.
Adquiri ao Colega CT1AN-Nascimento (falecido faz poucos meses), um TRIO TR2E, só com AM, que utilizava uma válvula QQE03/12 no andar final, sendo todo o resto do equipamento transistorizado.
Este equipamento tinha uma particularidade muito engraçada que era o facto de ter dois VFO separados, um para RX outro para TX.
Este equipamento foi mais tarde modificado por mim, com a ajuda do CT1BM-Cordeiro, para trabalhar também no modo de FM, o que veio a permitir-me em 1973 fazer aquilo que eu ainda hoje considero um feito histórico da minha Vida de Radioamador na Banda dos 2 metros.
Contacto directo em FM com a estação Italiana I0VKS da Cidade de Roma, com sinais de 59+30 dB e durante 5 minutos (não se ouvia então falar das Esporádicas E) e do qual guardo religiosamente o QSL.
Haviam muito poucas estações a trabalhar em Portugal na banda dos 2 metros, estando a maioria delas centralizadas em Lisboa e arredores, Porto e as outras bem distantes umas das outras, só sendo possível o contacto entre elas devido á Propagação que na altura estava no seu pico positivo.
Na zona de Lisboa lembro-me entre outras:
CT1KQ-Lisboa, CT1CO-Lisboa, , CT1FM-Lisboa, CT1IH-Lisboa, CT1ST-Lisboa, CT1NB-Lisboa, CT1UF-Lisboa, CT1OW-Lisboa, CT1PQ-Lisboa, CT1AP-Alcanhões, CT1DY-Glória Ribatejo, CT1DT-Benavente, CT1XI-Lisboa, CT1OB-Pirescouxe-Santa Iria CT1ZX/2º.Operador CT1QP-Moscavide, CT1ED-Moscavide, CT1AN-Paço D’Arcos, CT1RV-Lisboa, CT1KN-Lisboa, CT1HQ-Lisboa, , CT1IJ-Queluz, CT1ZK-Amadora, CT1WO-Lisboa, CT1RU-Lisboa, CT1VC-Lisboa, CT1MQ-Lisboa, CT1VS-Moscavide, etc…etc…etc.
Estações móveis existiam muito poucas, devido ao facto dos equipamentos serem bastante grandes e pouco adaptáveis aos carros de então, além de que consumiam bastante corrente á bateria das viaturas devido ao facto do consumo em AM ser bastante mais elevado do que em FM, CW, SSB.
Vou-vos só dar nota, de algumas das estações móveis, que operavam aqui na zona de Lisboa e arredores que eu de momento me recordo:
CT1OB/A-Hilmar, CT1ZU/A-Melo, CT1ED/A-Vitor Carvalho, CT1FM/A-Sérgio Marques, CT1PQ/A-Caro Veiga, CT1KN/A-João Ramos, CT1AN/A-Nascimento, CT1ZB/A-Vasco Aguas, CT1BU/A-Mata Fome, CT1OW/A-Corte Real, CT1IJ/A-Frederico Pires, CT1DY/A-Grilo, CT1AP/A-Prof.Martinho, CT1BQ/A-Galinha, CT1BT/A-Romualdo Teles, etc…etc…etc.
Mas…voltemos ao Colega Jorge CT1KQ.
Fiquei ainda mais curioso de ver aquilo tudo a funcionar, o que levou o Colega Jorge com uma paciência de Santo, passados alguns minutos a colocar aquela “tralha” toda a girar para eu ver como tudo estava operativo.
Fiquei aterrado….parvo…parecia um anormal, a olhar para aquilo tudo a mover-se lentamente de um lado para o outro.
Mais parvo fiquei, quando passado algum tempo o colega Jorge me mostrou o que estava dentro da caixa preta que fazia de rotor.
Era um motor de uma máquina de barbear da Philishave, com umas brutas rodas dentadas feitas em bronze, que tinham sido feitas á mão pelo CT1KQ e que serviam de desmultiplicação á força do pequeno motorzinho da máquina de barbear.
- “Aquilo…era areia de mais para a minha camioneta…”
Em seguida, falamos da antena de 7 elementos também construida pelo CT1KQ, que mais não era do que cópia de uma antena de marca Americana (Hy-Gain) que se Comercializavam em Portugal num Representante do Porto (creio que Pinto Leite, Ldª.-Representante da Heathkit), mas que custavam os olhos da cara.
O CT1KQ, falou-me em pormenor da sua construção, dos problemas que teve para colocar a antena a funcionar com a linha de 300 Ohms ( …lembrem-se que estávamos em 1970, a informação para os radioamadores era quase nula, em Português quase nada existia, apenas alguns esquemas que eram feitos á mão por alguns Amadores que iam copiando de Revistas Americanas, como QST, etc….nem sequer haviam Fotocopiadoras para se tirarem cópias dos esquemas ou scanners para retirar umas fotos dos pormenores de construção…eram tempos muito difíceis, a Internet não existia…), das dificuldades para aquisição do alumínio, da construção do Delta-Match, etc…etc…
Fomos então de novo para o “shack” do CT1KQ.
Reparei que o Colega Jorge CT1KQ utilizava como linha de transmissão fita de 300 Ohms phenólica, o que me fez alguma confusão, uma vez que eu nunca tinha visto aquilo a ser usado em emissão, só nas antenas de Televisão da altura.
Depois duma explicação sumária feita pelo CT1KQ acerca da utilização dessa fita de 300 Ohms entendi o porquê.
Prendia-se ao facto, da antena que estava a utilizar ser de uma dada impedância (alta) e a impedância aproximada da fita ser do mesmo valor aproximado de 300 Ohms .
Foi então que os meus “olhinhos de Lince” depararam com outra coisa esquisita.!!!
Um pedaço de fita de 300 ohms com uma lâmpada de quadrante dos rádio musiqueiros (6,3V) em cada ponta e colocado por cima da fita de 300 ohms que ia para o emissor, mas…seguro com uma mola da roupa.
-“Não havia duvida, era demais…o meu coração não aguentava tanta “espantação”…eram só coisas esquisitas, coisas que eu nem sequer fazia ideia para que serviam.
Mais uma vez não resisti…tive de pedir ao CT1KQ que me explicasse para que era aquele “aranhiço” ali pendurado.???
Nova gargalhada…juntamente com um afagar terno nas costas.
- “Olhe Gonçalves, isto é um medidor de estaccionárias.!!!!”
Tive naquela altura vontade de fugir dali.!!!
E lá me foi explicando pacientemente, como aquele “aranhiço” funcionava na prática.
Digo-vos muito sinceramente que na altura não percebi nada…rigorosamente nada, daquilo que o Colega Jorge CT1KQ me estava a explicar, até porque os meus conhecimentos de electrónica nessa altura eram quase nulos, para não dizer nenhuns.
Mais tarde, vim a entender finalmente como aquela “coisa” funcionava.!!!
A explicação é muito simples: - o pedaço de fita phenólica tinha um comprimento de ¼ de onda, ou seja aproximadamente 49 cm, num extremo da fita paralela, soldava-se uma lâmpada de 6,3 Volts-100 mA entre cada fio do paralelo da fita, na outra ponta fazia-se exactamente uma mesma ligação com a outra lâmpada igual.
Agora para pôr aquilo a funcionar era assim: - colocava-se o emissor no ar (emissão), depois ia-se deslizando o tal “aranhiço” ao longo do comprimento da fita de 300 ohms, até uma das lâmpadas acender fortemente, até ao máximo de brilho.
Quando uma das lâmpadas estivesse acesa no máximo de brilho, a outra lâmpada do lado oposto do “aranhiço” teoricamente estaria quase apagada ou mesmo apagada, sinal de que não havia corrente de retorno pela linha abaixo, ou melhor dizendo não tinha estaccionárias, entendido.????
Depois era só segurar ali o “aranhiço” com uma ou duas molas da roupa e pronto, o nosso medidor de SWR estava funcionalmente a trabalhar a 100 %.
Tão simples, não era.???
Depois seguiu-se um QSO nos 144 MHz, á boa maneira do Colega Jorge CT1KQ fazendo uma chamada geral que era mais ou menos assim:
- “…alô chamada geral… chamada geral ….chamada geral…Cê Tê 1 Kapa Quê chama em geral banda de 2 metros (repetia esta chamada três vezes) … Cê Tê 1 Kapa Quê, chamou geral na banda de 2 metros e vai escutar a banda…..terminado.!!!”
O CT1KQ começou então a rodar o quadrante do receptor e logo ouviu um sinal muito forte, mas uma vóz muito fraca e trémula dizendo: - “alô…Cê Tê 1 Kapa Quê… Cê Tê 1 Kapa Quê…daqui Cê Tê 1 Canadá Ontário, que responde á sua chamada geral, Cê Tê 1 Canadá Ontário responde á sua chamada geral, dá-lhe as boas tardes e vai escutar a banda, câmbio…câmbio.”
E pronto, iniciou-se ali mais um dos habituais QSO’s na banda dos 2 metros, entre dois Amadores, nas tardes de sábados e Domingos.
As horas passavam-se e quando dei por mim, eram quase 19.30 horas, tinha de me apressar pois tinha de estar em casa antes das 20 horas para o jantar de Família, que na minha casa era sagrado.
Fiz as despedidas, agradeci a tarde memorável que o Colega Jorge CT1KQ e Esposa me proporcionaram ( a dada altura da tarde, a ternurosa Esposa do CT1KQ, brindou-nos na marquise do shack do CT1KQ, com uma travessa cheia de bolinhos de manteiga feitos por ela, tortas, bolo de chocolate e um cházinho primoroso que nunca esquecerei…) e tive de partir, com a promessa de voltar outro dia, tal foi a insistência de ambos.

O Colega Jorge CT1KQ passados uns anos reformou-se, dedicou-se a tempo inteiro ao Hobby do Radioamadorismo, ás experiências, aos ensaios de antenas, á renovação dos equipamentos, visto começarem a aparecer no mercado alguns equipamentos de 2 metros com uma coisa espectacular que era o VFO para emissão e recepção, (Oscilador de Frequência Variável) que permitia não ter de recorrer aos famosos Xtais de Quartzo tão difíceis de adquir.
O CT1KQ tentou então, construir alguns VFO’s, recorrendo á tecnologia dos Mos-Fets e Fets, matéria esta que o CT1KQ não dominava muito bem, visto estar mais habituado ás válvulas. Deu-se inicio a uma fase muito complicada para ele, visto nunca ter conseguido construído um VFO estável, que permitisse escutar e ser escutado na mesma frequência.
Tentou….tentou…e nada.!!!
Os tempos tinham mudado… começaram a aparecer jovens com outros conhecimentos de electrónica, com garra, com outras ideias, com mais informação, com outras capacidades de creatividade, que revolucionaram a banda dos 2 metros em Portugal.
Surgiram os primeiros Grupos de Radioamadores, o Novice Gang VHF (CT1ZX,CT1QP,CT1ZK,CT1WO,etc.) o Gang da Borda D’Agua (CT1OB,CT1ZU, CT1ED, CT0320,CT1BM,CT1DL, etc.) e outros iam surgindo pelo Pais.
O Colega Jorge CT1KQ, rendeu-se á evidência.!!!
Faltava-lhe a paciência, a disposição, a vista, a serenidade manual, a Saúde.
Fazia grandes ausências, uma seguidas ás outras, até que…deixou de se escutar….tomei conhecimento da sua Morte bastante tempo depois.
Hoje certamente… no Além …CT1KQ deve de continuar a manter os seus QSO’s em frequências Astrais com outros Amadores do seu tempo, que já partiram também, mas certamente utilizando ainda o modo de Amplitude Modulada.
Alô …Alô…CT1KQ….um dia vamo-nos juntar por aí, depois faremos muitos QSO´s, mesmo que a Dona Propagação não nos deixe, portanto…Colega Jorge continue a escutar a Banda.!!!

Para terminar quero aqui deixar o relato feito mais tarde pelo CT1KQ acerca de seu Filho.
Vamos agora á breve história.
Ele tinha partido para o Brasil, para fugir á tropa, para não ter de ir para as antigas Províncias Portuguesas em África combater.
Fugiu de barco, um Katamaran construído por ele, fazendo-se ao Mar sem qualquer autorização Oficial, sem meios de navegação e de segurança, clandestinamente, enfim….uma verdadeira loucura.!!!
Desde essa data, e durante dois anos o CT1KQ e Esposa nunca receberam qualquer noticia dele.
Pairava na mentes destes Pais, a ideia que teria sido vitima de algum acidente e se tivesse afundado juntamente com o Barco, que tivesse adoecido e morrido, que tivesse sido capturado pelas autoridades Marítimas de algum País, etc…etc…etc.
Mas…a Vida tem gratas surpresas.!!!
Dois Anos depois…o telefone tocou.!!!
Do outro lado da linha, ouviu-se uma voz Familiar: “alô…Mãe… sou eu, estou no Norte do Brasil, com Vida e Saúde.!!!” daqui a dias… vou escrever-vos e contar-vos a história toda da minha Viagem…está tudo bem…dê beijinhos ao Pai.!!!
E desligou…aquilo foi uma Vida Nova que caiu dentro daquela casa.!!!
Meses mais tarde, (…ainda não havia naquele tempo o Correio Azul…, nem E-Mails ou MSN) eis que chega a prometida carta, com toda a história da Viagem, da sua estadia por Terras do Brasil e das suas intenções de Vida naquele Pais.
Tinha escolhido para residir uma Cidade do Nordeste do Brasil, junto á Amazónia, tendo entretanto conhecido e casado com uma Indígena duma tribo Índia, tinham naquela altura já 3 ou 4 filhos e esperavam outro brevemente.
Naquele tempo, os Índios não ouviam rádio nem viam televisão, e tinham muito tempo livre para estas coisas.!!!
O filho do CT1KQ, dedicou-se á construção de Barcos de Recreio, tinha um estaleiro seu onde em conjunto e sob a sua Direcção construía todo o tipo de Iates e Barcos de Recreio, chegando a construir algumas embarcações para Países como Inglaterra, Espanha, França, Holanda e Portugal.
Era conhecido Internacionalmente pelo seu rigor de construção e qualidade das madeiras utilizadas.
Vivia bem…Feliz…mas gostava que os Pais o fossem visitar ao Brasil, coisa que nunca veio a acontecer, por motivos de Saúde por parte do próprio CT1KQ, bem como de sua Esposa.



Elaborado por:
CT1DL-Francisco Gonçalves
2008

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O TI'MANÉL DO CINEMA


O Ti’ Manél do Cinema e “as Galenas”

Hoje venho relatar-vos uma pequena história e prestar a minha Homenagem, a uma pessoa que já algumas vezes tenho referido nos meus artigos (…sempre sumáriamente…) sobre a minha vida de Radioamador,
“O Ti’Manél do Cinema…” .

Estávamos nos Anos 60’s, tinha 15 anos de idade, morava em Alverca do Ribatejo, trabalhava no Escritório duma Fábrica de Móveis Metálicos (..para ajudar os meus Pais nas despesas da casa..), estudava á noite na Escola Industrial de Vila Franca de Xira, tendo os Sábados á tarde e os Domingos para as minhas diversões.
Lá ia “cravando” a minha Mãe aos Domingos, com 25 tostões (2$50…actualmente 1 cêntimo…o que era já uma quantia elevada para aquela época ), para ir ao Cinema lá do sítio ver uns filmes de Cowboys, com o Gary Cooper, John Wayne, ou Tarzan, Marisol, Gianni Morandi, etc…etc.
Só que…o Cinema local estava em obras de remodulação, tendo sido substituído por um Cinema ambulante ( tipo Circo ) onde eram passados os Filmes num grande écran colocado ao fundo do recinto.
O Cinema/Circo, estava montado num terreno, mesmo em frente á minha casa.
No Verão, aquilo até era engraçado, contudo no Inverno ou em dias de muita chuva, era frequente os espectadores terem os seus chapéus de chuva abertos, para evitarem chegarem a casa encharcados.
Eram épocas diferentes como devem de calcular, mas que me deixaram gratas recordações como esta que hoje vos quero relatar.
O Ti’Manél era o porteiro do Cinema e arrumador do mesmo.
Recebia os bilhetes, guiava os clientes até aos seus lugares e de vez em quando, lá lhe davam 5 tostões de “gorjeta” que ia juntando carinhosamente.
Era um Homem alto, magro, com muito boa aparência e simpático, ou não fosse ele um homem do Norte.
Uma tarde de Domingo, estava eu na fila para entrar para o cinema, quando ouvi o Ti’Manél dizer a um indivíduo que estava perto dele: - “…Oh…pá…vamos a despachar que eu quero arrumar a malta toda nos lugares, que quando o cinema começar, quero ir lá para dentro ouvir na minha Galena, o relato do Porto / Sporting que começa ás quatro horas…”.
Fiquei logo de orelhas no ar quando ouvi falar em “Galena”, pois tinha á pouco tempo ouvido umas conversas lá em casa, onde falavam numas “galenas”, que eram usadas em casa para ouvir música, sem pagar a taxa á Emissora Nacional.
Fui assistir ao filme e mal ele acabou, fui direitinho ao local onde se encontrava o Sr. Manuel e disse-lhe: -“Oh…Sr.Manuel, desculpe lá…posso falar consigo um bocadinho.???”
Espera aí um pouco….deixa-me só acabar de arrumar isto que já falamos.!!!
Pouco tempo depois, estava frente a frente com o Sr. Manuel e fui logo direito ao assunto.
“Sr. Manuel…desculpe lá o maçada…mas por acaso ouvi o Sr. á pouco falar que ia ouvir qualquer coisa na sua galena….é verdade.???? O Sr. tem mesmo uma galena.???”
Tenho sim…respondeu o bom Homem, rindo da minha cara de espanto e alegria ao mesmo tempo.
Porquê.??? Queres ouvir aquilo a tocar.???
A minha resposta foi imediata….”queria sim…”.
Então deixa-me lá acabar isto que estou a fazer, que já vamos ouvir aquela coisa a tocar…
Passados alguns minutos, o Ti’Manél já tinha terminado os afazeres que tinha entre mãos e disse-me:
-“vamos lá então….ver a coisa a funcionar.!!! “
Fomos até á Caravana dele, que estava instalada mesmo ao lado do Cinema/Circo.
O Ti’Manél era um Homem de 60’s e tais anos de idade, viúvo, vivia numa Caravana, pois como andavam sempre de terra em terra, não podia ter residência fixa…segundo ele dizia.
Ele dirigiu-se em silêncio até uma prateleira, que estava colocada por cima da cabeceira da cama, onde descansava algumas horas, depois de um dia extenuante de trabalho.
Puxou duma caixa de sapatos com a respectiva tampa, e colocou-a em cima duma mesa, onde ainda estavam alguns vestígios de uma refeição.
Então pensei logo…..”pronto…já estou lixado…este agora vai-me mostrar os sapatos que comprou na Feira de Alverca e nunca mais me mostra a coisa a funcionar…”
Mas, não….depois de colocar a caixa sobre a mesa, começou á procura de qualquer coisa que deveria de estar escondida atrás da cama….”que coisa complicada….isto de ter uma galena é assim tão difícil de pôr a funcionar.??? “
Até que…finalmente lá estava aquilo que o Ti’Manél procurava….nem mais nem menos, que dois fios enrolados cuidadosamente e atados com um cordel fino, formando um rolo.
Meu rapaz….isto são os fios de antena e de terra, percebes.???
Claro que eu percebia completamente ( hi…hi…hi.hi…), como devem calcular….fios de terra e fio de antenas… comigo…era tu cá…tu lá…
Fiquei calado, apenas acenando com a cabeça afirmativamente, tentando não dar parte de fraco, até porque me estava a fazer confusão o facto, do tipo querer ir ligar os fios á caixa dos sapatos…
Os fios lá foram puxados para cima da mesa, tendo finalmente o Ti’Manél tirado a tampa da caixa, deixando ver no interior, não um par de sapatos, mas sim uma tábua de madeira com uns “jingarelhos” lá pendurados, fios, um tubo de cartão com uns fiozinhos todos enrroladinhos ao lado uns dos outros, tudo muito bem arrumado, sendo as peças unidas, com uns pregos de sapateiro, em cima da tal tábua de madeira.
Mas…despertou-me logo á atenção… um elemento daquele monte de “fiarada” que estava dentro da caixa.
Eram duas coisas meio esquisitas, que estavam ligadas uma á outra através de uma cinta de aço, que mais pareciam duas caixas de pomada para os sapatos.
Daí ter disparado logo com a primeira pergunta ao Ti’Manél: -“Sr. Manuel, o que é que são aquelas coisas redondinhas que estão ali.????”
O Ti’Manél riu-se… da minha ignorância e da minha inocência, respondendo: - são uns auscultadores, que servem para nós ouvirmos, a musica da galena, estás a entender.?
Bom….mas vamos lá ligar isto tudo como deve de ser… para ouvires aqui a engenhoca a trabalhar.!!!
Fio daqui… fio dali …e colocou finalmente, aquela coisa que ele chamava os auscultadores nos seus ouvidos, começando a mexer para trás e para a frente lá num botão meio esquisito, que estava pregado á tábua…pouco tempo depois, começou a bater o pé ligeiramente no chão…começando a cantar baixinho….
“…não venhas tarde…dizes-me tu com carinho….Olha…já estou a ouvir o Carlos Ramos a cantar um fado…” .
Ouve lá tu….toma lá os auscultadores.
Mal coloquei os auscultadores nos ouvidos, fiquei meio “abananado” com aquilo que estava a escutar…era mesmo musica…aquela “fiarada” toda, a caixa dos sapatos, a tábua lá dentro com aqueles “jingarelhos” todos agarrados com pregos, dava mesmo música ….cún canéco.!!!
Aquilo era mesmo giro.!!!!
Mas o meu espanto ainda foi maior, quando a música acabou e ouvi a vóz de uma Mulher que me era familiar, sempre que andava nas minhas “sarranfoniçes” na telefonia lá de casa.
Era uma Senhora com uma vóz muito doce e calma, que se chamava Maria Leonor, e informava que estávamos a escutar a Emissora Nacional, eram 20 horas e iriam dar início ás noticias do País.
Fiquei logo… arrásca… 20 horas….o meu Pai… vai-me dar cabo do “canastro” pensei logo.
Já devia de estar em casa, para o Jantar com a Família….despedi-me do Ti’Manél , com a promessa de voltar em breve, para ele me explicar como é que aquilo funcionava.
O Ti’Manél….ria-se… que nem um desalmado… vendo-me tão atrapalhado, e retorquiu:
“…é pá….volta quando quiseres rapaz…eu depois com mais calma… explico-te como é que podes fazer uma coisa destas, para teres lá em tua casa…”
Quando ouvi aquilo…já não sabia o que fazer….se ficar…se seguir para casa para não levar um raspanete do meu Pai.
Pensei duas ou três vezes e optei pela última sugestão…fui direitinho a casa, até porque era só atravessar a rua para o outro lado.
Por sorte, a minha Mãe ainda estava a acabar de por a mesa, de modo que passei despercebido ao meu Pai, não tendo ele sequer reparado nas horas.
O jantar decorreu como habitualmente, enquanto se comia calmamente, o meu Pai falava com a minha Mãe, sobre coisas diversas, enquanto eu escutava atentamente tudo quanto se dizia sem proferir uma palavra.
Eles conversavam….mas eu não estava a escutar nada daquilo que ali se estava a passar em meu redor….
A minha mente já estava noutra onda….”galenas….fios de terra … fios de antena…auscultadores….já me estava a ver com os auscultadores nos ouvidos, sentado no meu quarto, ouvindo musica da minha própria galena… feita por mim…”
Só conseguia era ouvir isto: “eu depois com mais calma… explico-te como é que podes fazer uma coisa destas para teres lá em tua casa…”
Depois da refeição, vim até a varanda da minha casa (2º.andar) para poder sonhar um pouco mais de olhos abertos, sobre tudo aquilo que me tinha acontecido naquela tarde.
Andei toda a semana a pensar no assunto da galena, esperando pacientemente que chegasse sábado, para poder voltar a encontrar-me com o Ti’Manél do Cinema, com o objectivo de podermos esclarecer algumas coisas que tinham ficado por esclarecer, nomeadamente como é que aquilo funcionava, como é que eu podia construir uma galena, o que é que precisava de arranjar, etc…etc…etc.
Depois de muita ansiedade, eis que chegou sábado finalmente.
Ainda tive de trabalhar das 9 horas até ás 12:30, pois naquela época (1965/66) na maioria das Empresas só davam a semana Inglesa.
Logo que saí do Escritório, fui a correr para casa, almocei e de imediato desloquei-me até ao outro lado da rua, na esperança de encontrar o Ti’Manél, que deveria estar nas proximidades do Cinema/Circo.
Olhei em redor…e nada.!!
Bom…ele deve de estar lá dentro do Cinema, nos preparativos para o Filme de logo á noite.
Bati á porta e gritei…. “Sr.Manél….está por aí.????”
Não obtive qualquer resposta, o que me deixou desolado.
Voltei a insistir….e nada de resposta.
Bom…hoje não é o meu dia certamente, pensei.
Quando já estava para desistir e regressar a casa, ouço uma vóz com sotáque do Norte a cantarolar ….
-“…um molhinho bem feitinho…faz indreitar o páuzinho…óh…lari…lari…loléééé…”
Era o Ti’Manél que estava na caravana a preparar o almoço, cantarolando, enquanto mexia com uma colher de pau, o conteúdo dum tacho de barro que estava sobre o fogão.
E aquilo, cheirava bem…hum…que cheirinho… disse-lhe eu.!!!
Olá rapaz….queres comer alguma coisa.???
Estou a acabar de fazer aqui uma carninha guisada com massa, que deve de estar uma delícia.!!!
Agradeci, dizendo-lhe que já tinha almoçado, mas que lhe fazia companhia, pois assim podíamos continuar conversando sobre o assunto da galena.
Após o almoço, o Ti’Manél lavou e arrumou os utensílios de cozinha, tendo então finalmente ficado á minha disposição, para as questões que eu lhe tinha para colocar, que eram bastantes como devem de calcular.
Em primeiro lugar, foi buscar de novo a caixa de sapatos com a galena, desenrolou os fios de terra e antena e colocou tudo em condições de começar-mos e escutar aquela “coisa” a tocar.
A minha primeira pergunta foi logo disparada, não lhe dando tempo sequer de acabar de montar tudo como devia de ser: -“Oh…Sr. Manuel... para que serve o fio de terra e o fio de antena que ligamos á galena"…??
Então o Ti’Manél foi buscar um papel onde tinha desenhados uns “arabescos e uns gatafunhos” meio esquisitos, onde me foi explicando, a trajectória que os sinais de rádio (que eram captados pelo tal fio de antena), levavam até chegarem aos auscultadores.
De seguida explicou-me, como é que podia construir uma “coisa daquelas” para ter lá em minha casa.
Aquilo foi… uma desgraça…começa-me logo a falar de bobines, fio de cobre esmaltado, tubo de plástico ou cartão, condensadores, diodo de germânio, alvéolos, uma tábua de madeira, pregos e auscultadores.
Aquilo para os meus ouvidos, era completamente “Chinamarquês”.
Mas…com a paciência que lhe era natural, lá me foi dizendo como é que tudo se podia arranjar, dando-me indicação que teria muito gosto em procurar nas suas “sucatas” de material que dispunha, os componentes que seriam necessários juntar.
Aquilo para mim foi uma óptima ideia, pois não me estava a ver com iniciativa de conseguir juntar tudo aquilo que necessitava ( $$$$), para construir a minha galena.
Depois de “rabuscar” tudo o que era caixotes, caixas, frascos de vidro, papelinhos enrolados dentro de sacos de plástico, saiu a conclusão final: - “pronto rapazão…só tens de arranjar uns auscultadores que o resto temos aqui tudo…”
Como devem de calcular, fiquei que nem um “peru inchado”
Tinha quase tudo, para poder montar a minha “engenhoca” a que ele chamava galena.
Deitámos mãos á obra, naquela tarde de sábado que me ficou memorável.
Passadas umas duas horas, já tínhamos os componentes quase todos “encavalitados” em cima da tábua de madeira que carinhosamente tinha sido preparada por mim, sempre acompanhado pelos olhos vivos e felinos do Ti’Manél, que aqui e ali me ia dando indicações, da forma como devia utilizar o serrote, para não cortar algum dedo.
Seguiu-se a construção da bobina….foi o cargo dos trabalhos… pois nunca mais “atinava” com o jeito de segurar com os dedos as espiras já enroladas, evitando que aquilo tudo se desenrolasse desordenadamente.
Depois de algum esforço e paciência, lá consegui que tudo ficasse em condições de ser montado.
Mas…foi uma luta titânica, acreditem.!!!!
Passámos á fase seguinte, ver se aquilo funcionava.!!!
Testámos a montagem, e aquilo funcionou logo á primeira…tendo até o comentário do Ti’Manél, que me disse que aquela montagem estava mais “sensível” que a dele.!!!
Não percebi muito bem o que aquilo queria dizer, pois nunca tinha ouvido falar em “sensibilidade” de uma galena, mas enfim…quem era o Mestre era o Ti’Manél e eu era o aprendiz.!!!
- “Pronto rapaz…tens a tua galena pronta…já podes levá-la para casa e começares a ouvir musica descansado… só tens de arranjar um fio de terra e um fio de antena…..há…e não te esqueças…os auscultadores”.
Despedi-me do Ti’Manél até ao sábado seguinte, agradecendo-lhe uma vez mais, os seus préstimos e a sua disponibilidade para me aturar.
Regressei a casa.
Agora faltava agora o mais importante…”os auscultadores”….o fio de antena e o fio de terra.
Como é que eu me iria “desenvencilhar” desta situação.????
È o que vamos ver a seguir.
Tinha de arranjar maneira de passar um fio o mais disfarçadamente possível, desde o meu quarto até á casa de banho, local onde se encontrava (segundo indicação do Ti’Manél ) o ponto de ligação de terra, que era uma torneira do lavatório.
Levei uns quantos dias, a esquematizar a possibilidade do fio chegar á casa de banho sem ser visto pelos olhos da minha Mãe, sem que houvesse logo uma grande confusão de pôr os cabelos em pé.
Para isso…tinha de evitar fazer qualquer tipo de buracos, cortes, esmurradelas, etc…desde o meu quarto até ao local onde se encontrava a torneira.
Pensei….pensei….até que me surgiu uma ideia luminosa.!!!
Da porta do meu quarto até á porta do casa de banho, existia uma carpete vermelha e larga, que quase cobria toda a largura do corredor.
Aquilo… vinha mesmo a calhar .
Dai a passar o fiozinho por baixo da carpete, até á casa de banho foi um instante…aproveitei uma saída da minha Mãe á rua e…..”pimba” lá estava ele á saída da casa de banho, bem disfarçado ao canto da porta mesmo por detrás da dobradiça para não ser visto com facilidade.
Lá amarrei com umas quantas voltas, o fio em redor do tubo préviamente limpo com uma lixa fina e pronto….a primeira etapa tinha sido ultrapassada.
Percorri todo o percurso, para me certificar que aquilo estava mesmo dissimulado e que não haveria lugar a nenhuma descoberta triunfante da minha Mãe, dentro dos próximos tempos.
Agora só faltava o fio de antena…isso até foi o mais fácil.!!!
No meu quarto, havia uma mesa (secretária) que utilizava para fazer os meus trabalhos da Escola e onde arrumava algumas coisas pessoais, ficando esta, mesmo junto á janela que dava para a varanda.
Foi só passar o fio por trás da cama, por trás da secretária, e lá estava ele pronto, para sair através da janela para a varanda.
Aproveitei então, uns camarões que se encontravam colocados a cada lado da varanda e que em tempos tinham sido usados pela minha Mãe para numa corda, secar a roupa especialmente quando chovia.
Aquilo, estava ali mesmo a calhar que nem Ginjas.!!!
Fiz a antena tal como o Sr. Manuel me tinha explicado, com umas peças que ele me tinha dado, a que chamou isoladores de porcelana, um em cada extremo do fio, que deveria ter cerca de 10 metros, ocupando quase a totalidade do comprimento da varanda.
Depois num extremo do fio grosso que servia de antena, raspei-o e enrolei umas 10 voltas do fio mais fino, aquele que vinha de dentro do meu quarto pelo canto da janela…e…pronto, aquilo parecia que estava tudo acabado.
Faltava-me sómente agora resolver, o problema dos tais auscultadores, para conseguir ouvir a galena a funcionar.!!!
Fui a correr ao outro lado da rua, com a ideia de pedir ao “Ti’Manél do Cinema” os seus auscultadores para poder testar a “coisa” lá em casa.
Claro… que o pedido foi aceite de imediato pelo bom Homem, que prontamente me colocou nas mãos o tal instrumento, dizendo-me que podia ficar com ele durante uns dias.
Corri para casa…subi as escadas… mais rápido que um relâmpago…abri a porta e depois de quase ter tropeçado na minha Mãe, cheguei ao meu quarto.
Liguei os auscultadores aos alvéolos da minha galena e…..lá estava….a música dos Emissores Associados de Lisboa, com o Sr.Marques Vidal ao microfone, anunciando a programação para o período daquela emissão.
Aquilo funcionava mesmo….e bem.!!!
Fiquei todo satisfeito, depois de toda aquela luta feróz com as montagens, peças, fios, antenas, etc…etc..
Por mais voltas que desse, não conseguia saber onde é que havia de encontrar uma coisa daquelas.
Quero lembrar…que estávamos em 1965/66 e a Internet não existia, não havia informação nenhuma sobre casas que vendessem componentes electrónicos e fundamentalmente, o dinheiro não abundava nas minhas magras “algibeiras”.
Eis que….um dia ao falar com um colega da Empresa onde trabalhava, dei-lhe nota da dificuldade que estava a ter relativamente á obtenção dos auscultadores para a minha galena.
Ele calmamente…riu-se …olhou para mim e disse: - “ sabes uma coisa....todos os sacanas têm sorte.???” .
Eu fiquei meio confuso com a sua afirmação, até ele me esclarecer o que queria dizer com aquilo.
- Faz algum tempo, andei a tirar um Curso de Rádio numa Escola de Lisboa, acabei o Curso e tenho lá em casa todas as lições teóricas e práticas, bem como todo o material referente ás montagens práticas.
Se quiseres, poderei emprestar-te os auscultadores que serviram também para utilizar numa galena, que fazia parte das lições práticas desse Curso.
È claro.... que aceitei de bom grado, a oferta feita pelo meu colega de trabalho, que no dia seguinte me entregou, um lindo pare de auscultadores completamente novos em folha.
Levei os auscultadores para casa e experimentei-os na minha galena, com a satisfação de Ter verificado que a qualidade e a amplitude do sinal de audio, eram muito melhores que os velhinhos auscultadores do meu Amigo Ti’Manél do cinema.
Prontamente, fui entregar os auscultadores ao Sr.Manuel, reconhecido ficando uma vez mais, pela sua gentileza e confiança em me ter cedido tal peça rara.
Assim ficámos Amigos durante muito tempo, até que um dia…. o edificio do Cinema de Alverca ficou pronto…o Cinema/Circo acabou a sua actividade naquela localidade e…. o meu Grande Amigo Manuel,partiu….. com o seu Cinema ambulante para outras paragens.
Foi um duro golpe que senti e que mexeu muito com os meus “sentimentos” de miudo, pois durante muito tempo....sempre que abria a janela do meu quarto logo pela manhã…olhava para o outro lado da rua...para o descampado em frente... e via se o “Ti’Manél do Circo” lá estava á minha espera...sempre disposto para me aturar e satisfazer as minhas duvidas e parvoices de miudo de 15 anos, cheio de curiosidade e vontade de saber tudo... mesmo aquilo que não era para saber.
Alô… Sr.Manél....você deve-me estar a escutar na sua galena...por isso quero que saiba…que o Senhor foi um dos grandes culpados de hoje, eu pertencer ao tal grupo” dos tipos meio malucos que tem uns emissores e receptores lá em casa, que falam uns com os outros por todo o Mundo…eram salvo erro os RADIOAMADORES….”
Obrigado...por me ter aturado e por tudo aquilo que me ensinou.!!!
Ainda hoje... passado todo este tempo, parece que o estou a ouvir ainda a cantar baixinho: - “…um molhinho bem feitinho…faz indreitar o páuzinho…óh…lari…lari…loléééé…”

E como uma desgraça nunca vem só....passadas algumas semanas, o meu Colega de trabalho que me tinha emprestado os auscultadores, fez talvez a maior das asneiras da Vida dele....ofereceu-me todo o Curso de Rádio da tal Escola (Rádio Escola-Alvaro Torrão), na qual que ele tinha tirado o Curso.
Daí para a frente...foi uma desgraça meus Amigos...passados alguns tempos tirei outro Curso de Radio, desta feita no CIT-Centro de Instrução Técnica, montagens e mais montagens, sempre lutando contra tudo e contra todos....a prova é que ainda hoje aqui estou ...com muitas saudades desses tempos, em que as coisas eram tão dificeis de obter, mas que davam tanto gozo e prazer, sempre que construiamos qualquer coisa por muito simples que fosse e explodíamos de alegria e satisfação sempre que conseguia-mos os resultados esperados.
Ainda não faz muito tempo... estava em QSO nos 40 metros, com um Amigo da Velha Guarda ( CT4RK-Carlos Mourato ), onde recordávamos exactamente esses tempo passados da Radio e ele perguntou-me: - ...è pá... óh...Gonçalves, tu lembras-te daquele cheirinho que as válvulas dos emissores deitavam...quando estavam quentinhas..????
Fiquei sem resposta.... de tantas saudades que tive desses tempos.!!!
E você... prezado Leitor e colega Radioamador, lembra-se desse cheiro.????
Eu…. lembro-me.!!!!!

Francisco Gonçalves
CT1DL
2009