Procurar:

sábado, 16 de abril de 2016

domingo, 2 de junho de 2013


FUI VISITAR UM VELHO AMIGO

Falecido em: 21 de Abril de 2014
 
                   Um dia... com o CT1DY                                          


Introdução

Antes de mais, quero dizer-lhes, que conheço o Colega Grilo já faz uns bons 40 e tal anos, era eu um “puto” (tinha     uns risonhos 17 anos) acabado de ser  formado na velha escola,  do Radioamadorismo, já o Grilo era um homem feito, casado, exercendo a sua profissão de Técnico de Electrónica na RARET (Empresa já extinta pelos seus donos, os EUA) localizada na Glória, ali bem no coração do Ribatejo.
Nessa época  morava eu em casa de meus Pais, nos Olivais Sul, perto do então QTH de CT1VC, Rui Sá Nogueira.
Ali bem perto, morava  o Colega CT1XI-Mariano Gonçalves, que além de ser um grande amigo, era também meu colega de batente, na Empresa PLESSEY-Automática Eléctrica Portuguesa, em Cabo Ruivo, também já extinta faz alguns anos.
Tive ocasião de algumas vezes, visitar o Grilo na sua casa, dentro das instalações da RARET onde habitava, tendo ali ocasião de constatar pela primeira vez, as influências que a  RF (Radiofrequência) tinha  nalguns objectos caseiros, tais como lâmpadas fluorescentes que acendiam sem estarem ligadas nos interruptores, devido ao campo Radioeléctrico gerado pelos emissores de onda curta durante certas horas da noite em que os emissores debitavam a sua máxima potência para assim poderem alcançar os locais onde se destinavam as emissões.
Assim, por vezes tinham de se retirar as lâmpadas fluorescentes dos seus suportes e colocá-las atrás das portas das dispensas, para  que as pessoas pudessem descansar durante a noite e não serem incomodadas com o flamejar das lâmpadas ao ritmo das vozes e das musicas que os emissores enviavam para as cortinas de antenas ali instaladas.
Fazíamos Qso’s frequentemente em VHF e o Grilo era sempre um grande entusiasta das comunicações em VHF e falava-me já naquela altura em comunicações em UHF que era a banda do futuro, o que eu devido à minha ignorância radioamadorística  não acreditava muito, diga-se em abono da verdade.
Quando fazíamos Qso’s nos 40 metros, ele dava-me sempre reportagens de 4-6  ou 4-5, nunca me dava 59 e, eu ficava todo “lixado”, chegando muitas vezes a dizer-lhe que ele era um  “forreta do caraças” pois nunca me dava um 59, ao que ele me respondia:  “ …um dia quando cá vieres a minha casa eu mostro-te porque é que eu não te dou 59…Oh…Xico…”
Pois quando visitei o Grilo pela primeira vez na RARET, a minha primeira preocupação, foi saber qual era então aquele misterioso enigma que não deixava o Grilo passar-me reportagem de gente crescida e dá-me sempre uns sinais  miseráveis.
Então o Colega Grilo, levou-me ao local do crime….subimos ao primeiro andar….ele foi buscar uma lâmpada de filamentos para 12V-150mA (estes valores já não estou certo deles, mas fica registado apenas como exemplo…) colocou-a na baixada da antena dos 40 Metros e qual não foi o meu espanto…ela acendeu….tal qual estivesse ligada a uma fonte de 12V….então o Grilo disse-me:  “…Oh Xico…estás agora a ver porque é que eu não te escuto com 59.????”
Ai…percebi finalmente, que devido à  forte intensidade de campo existente no local, era de todo impossível ter no receptor menos de 59 de QRM....era impressionante acreditem.!!!
Bom…muito teria de contar de episódios dessa época com o CT1DY, como por exemplo ter aprendido com o Grilo a fazer botões para utilizar nas construções de receptores e emissores, conversores, utilizando as tampas dos dentífricos da Colgate e Pepsodente e, que ainda hoje muitos Amadores desconhecem as dificuldades que o Radioamador naqueles tempos sentia ( $$$$$$$ ) em conseguir arranjar maneira de comprar esses botões para embelezar e dar vida aos seus equipamentos.
Mas isto foi só para vos dizer que conheço o CÊTÊ...UM…DÊ…IPESILÃO, já faz uns bons anitos….

                              Vamos então à Visita….

Já havia muito tempo, que tinha intenção de fazer uma visita a um velho Amigo de longa data, o CT1DY - Colega António Monteiro Grilo.
Combinamos pela Rádio nos 145.350 MHz, o dia, a hora, o local e, lá pus pés ao caminho e fui ter com o Grilo a Vialonga.
À boa maneira Inglesa, 11:30 da manhã, lá estava eu á porta do Jovem Grilo, estando ele à minha espera na janela de sua casa com o seu portátil de VHF em punho, tal como tinhamos combinado.
Subi o elevador, deparei-me então com a porta já aberta…e lá do fundo ouvi uma voz já muito conhecida….”entra Xico… entra aqui para o fundo…. entra e fecha a porta….”
Lá me encaminhei para o local onde tinha ouvido a voz do Colega Grilo…lá estava ele…sempre amável…simpático….e quando a saúde o deixa… (o que foi o caso) muito bem humorado e brincalhão.
É pá…estás na mesma Xico…tu não te fazes velho….disse-me ele, estendendo-me a mão.
Depois das apresentações habituais e das saudações de quem já não se vê faz algum tempo, entrámos finalmente, no verdadeiro motivo (para além de poder estar pessoalmente com o Grilo) que me tinha levado a visitá-lo e a fazer-lhe perder o seu precioso tempo, …ver como se podiam receber imagens dos satélites meteorológicos… de saber, como era possível observar as manchas solares diariamente e fazer os seus registos….de conhecer, os equipamentos utilizados nestas buscas….que tipos de antenas eram utilizadas…enfim um sem numero de coisas que me despertaram o interesse e,  que o Grilo gentilmente se disponibilizou para me explicar.
Mas… o Colega CT1DY, como pessoa organizada que é, traçou logo ali o programa para o dia…. “Oh….Xico, como são quase horas de almoço, vamos só receber aqui umas imagens do satélite que está quase a passar, até para veres como isto é….depois vamos almoçar e ficas desde já convidado por mim para irmos vitaminar fora, pago EU…ouviste.???
Quando viermos do almoço….então já estamos com a tarde toda livre para podermos dar volta a tudo….estás de acordo ou não.????
Claro…quem é que não podia estar de acordo.????
Começou por me mostrar em pormenor uma das três salas onde está instalado a parte respeitante à recepção dos satélites meteorológicos, o VHF e UHF a TVA, os 23 cm em Fonia, a Oficina e o laboratório.
Tudo isto, devidamente acondicionado, devidamente protegido com resguardos em todos os equipamentos  por causa das poeiras, tudo devidamente identificado com etiquetas nas fichas diversas de áudio, nas fichas de antenas, nas alimentações, os Mapas, as cartas, as tabelas das orbitas, os registos, enfim….a coisa estava como se tudo aquilo fosse uma verdadeira sala de operações de um centro de rastreio de satélites em plena laboração, dava gosto ver…e sentir o cheiro do mistério e do ambiente que ali se vivia…era a exploração do Espaço…o mistério que vinha dos Céus e que nos entrava ora pela janela ora pela antena do receptor.
Naquilo, decorre uma operação relâmpago….o CT1DY liga o computador….faz accionar um programa que era o WXSAT…liga um receptor especial só para receber as frequências de satélites….eu começo a ouvir uns apitinhos lá no fundo….terruk…terruk…terruk….terruk….e lá estava, ali mesmo à minha frente…bem visível  no monitor o mapa da Península Ibérica, Norte de África…Madeira…Canárias…etc, e tudo a cores….era um espanto!!!!
Bom…já não me apetecia ir almoçar….estava com mais vontade de ali ficar e esperar pela próxima passagem do satélite, mas o Grilo acalmou-me:  “ Oh…Xico….a próxima passagem é por volta das 16:20 e a orbita ainda é mais favorável de modo que quando ele passar de novo, já tu estás ao corrente de como tudo isto funciona….”
Fomos então almoçar….deslocamo-nos a um Restaurante ali das redondezas e, enquanto almoçava-mos lembrámos episódios que tínhamos passado fazia já alguns anos, de colegas com quem privamos, de aventuras que tivemos com as nossas famílias, enfim um “recordar é viver”.
Após o almoço, lá nos dirigimos de novo até ao QTH do Colega Grilo, estava um calor de arrasar….o Grilo foi vestir então o seu traje de trabalho, fato-macaco de uma Marca de Motos Japonesas, bastante conhecida e ficou então pronto para aquilo que eu lhe tinha pedido e que ele fez magnificamente; - explicar-me tim, por tim tim…todos os passos e todos os segredos daquele “Mundo” que habitava dentro da sua casa  e que eu tanto queria conhecer.
Passamos então para uma outra sala, ali estava instalado um enorme telescópio, montado numa estrutura de madeira desenhada e construída pelo CT1DY onde se poderia, entre outras coisas, regular mecanicamente a inclinação do telescópio relativamente à posição do Sol, aplicar filtros de protecção de UV, aplicar a imagem recebida do Sol a uma tela especial onde se identificariam as manchas solares, montar um elemento electrónico que possibilitaria visionar num televisor ou num monitor as  imagens que estavam a ser projectadas pelo telescópio, acompanhar mecanicamente a trajectória do Sol, etc…etc…
- Aquilo  prometia.!!!
Mais ao lado um modelo mais simplificado de outro telescópio de construção caseira: home made CT1DY, que basicamente fazia o mesmo que o anterior, embora com menos capacidades e com menos resolução visto a objectiva ser de menores dimensões.
E foi com este mesmo telescópio, que o CT1DY me deu o privilégio de poder pela primeira vez na vida, ter visto  "in loco"  uma imagem projectada do Sol e as suas 5 manchas solares que se estavam a registar naquele preciso momento num gráfico ( construído também pelo CT1DY ) pelo Colega Grilo.
O Grilo, pegou então numa estrutura em madeira por si construída e, colocou-a num suporte, também de sua construção, que estava instalado no varandim da janela da sala onde estávamos naquele momento.
Este suporte estava já previamente posicionado em relação à hora e à posição do Sol naquele momento.
Tudo estava estudado... ajustado... calibrado... para que nada falhasse, quando fosse preciso fazer as leituras das manchas solares com aquele instrumento.
 Falta-me dizer-lhes, que aquela estrutura de madeira construída pelo CT1DY, continha dentro o telescópio, bem como um mecanismo de desmultiplicação , que permitia fazer um ajuste muito fino, da deslocação das lentes do telescópio, permitindo assim focar com mais precisão e nitidez as imagens, que iriam ser projectadas na tal escala graduada, também ela construída pelo CT1DY.
"Bom...agora oh...Xico...vamos lá a ver se isto funciona....pois o Sol já se está a querer passar para o outro lado...."
E ali estavam elas...as manchas solares…5 grupos de pontinhos devidamente definidos, espalhados pela superfície solar.
O Colega Grilo disse-me então: "oh...Xico...queres ver como isto funciona....mexe lá aqui neste botão....roda-o para a esquerda e para a direita, e vê lá se não vês o Sol a ser deslocado num e noutro sentido, ali naquela escala que está ao fundo.????"
E assim aconteceu...tal como ele me tinha dito.
Ao deslocar aquele botão (tipo manivela) ora para a esquerda ora para o direita, a imagem do Sol também se deslocava no sentido por nós pretendido, permitindo assim, colocar a projecção da imagem do Sol dentro da tal escala idealizado pelo CT1DY.
Lembrei-me então…de há uns meses atrás ter estado a ver com a ajuda de 2 discketes sobrepostas, a passagem de um Planeta pela frente ao Sol e que me deixou encantado.
Perguntei então ao Colega Grilo se por acaso ele tinha visto aquele fenómeno... ao que ele respondeu:.….” Oh…Xico, sabes que eu por aqui estou sempre em cima dos acontecimentos, até porque cruzo estas informações todas com um Astrónomo dos Açores ao qual  envio  periodicamente estes registos que depois vão ser compilados e cruzados também com outros registos que são recebidos de diversos pontos do Mundo e enviados à NASA.
O Grilo foi então a um grupo de registos de cartas solares…desfolhou cuidadosamente algumas e……” ora aqui está…..estás a ver aqui…cá está ele…entrou por este lado aqui e saiu por ali….” lá estava ele devidamente assinalado na tal carta de registo das manchas solares que diariamente é efectuada pelo Grilo.
Era impressionante….estava tudo ali…à mão…parecia que era só perguntar e as coisas apareciam.
Eu fazia-lhe perguntas atrás de perguntas, o Grilo dava-me sem vacilar explicações atrás de explicações!!!
Foram-me mostrados, mais alguns programas instalados em computadores, que serviam também, para seguir as órbitas de alguns satélites meteorológicos e de Radioamadores, receptores diversos, antenas para os diversos satélites (...todas de construção caseira...), relógios especiais com alarmes, gravadores, etc....etc....ect...
Passámos então para a sala, onde estavam instalados os computadores centrais daquele centro de rastreio de satélites do CT1DY, pois estava quase na hora de mais uma passagem do NOAA 15 e, aquela orbita era muito mais favorável que a que tinha sido rastreada da manhã.
O Grilo ligou então o seu receptor especial, que se destinava única e exclusivamente a frequências de satélites, equipado com filtros e correctores de áudio, que permitiam assim receber com melhor qualidade as imagens enviadas pelos diversos satélites meteorológicos ou de Radioamadores.
Após tudo ligado, receptor...computadores...monitores....e seus periféricos, tudo estava apostes para começar a receber as imagens enviadas pelo NOAA 15.
Eram 16:35 UTC....e mesmo à hora marcada, lá estava....a imagem a começar a ser formada no monitor.
E qual não foi o meu espanto....quando verifiquei que a imagem era a cores....nítida.....sem riscos...totalmente comparada com aquelas imagens que víamos por vezes no Serviço de Meteorologia Nacional após o Telejornal.
Fiquei de boca aberta.!!!!
Aquilo era única e simplesmente "espantástico"...hi...hi...hi...
Como a imagem era de boa qualidade, o colega Grilo guardou-a numa pasta que o próprio programa continha, permitindo assim ao utilizador poder mais tarde reve-la ou imprimi-la.
A minha alma estava parva....como aquilo era (parecia...) tão simples....mais fácil que saltar à corda.!!!!
Depois o Colega Grilo, fez questão de me oferecer verbalmente, umas quantas informações relativas às orbitas dos satélites, as antenas a usar, sites onde eu poderia obter as actualizações dos "Keplers"   (... que tanto me custou a dizer...o Grilo já se ria a bandeiras despregadas, por eu não conseguir dizer Keplers....só conseguia dizer: Kreplers...), para assim estar em actualização constante sobre as correcções das orbitas dos satélites e das horas de passagem que vão sendo actualizadas.
Trouxe também umas discketes com 2 programas, um para  para receber imagens de satélites e outro para fazer o seguimento visual  dos mesmos, sabendo assim, onde estão os satélites localizados em qualquer instante, relativamente ao meu QTH.
Estava a chegar ao fim, a minha visita a casa do Colega António Monteiro Grilo - CT1DY, por Vialonga, pois tinha de me ausentar por motivos pessoais e não podia estar mais tempo na boa companhia do Grilo.
Foram as despedidas....sempre cordial, simpático, bem disposto, o Colega Grilo acompanhou-me à porta e em estilo de despedida disse: " oh...Xico...agora quero-te ver já logo ou amanhã a receberes imagens dos satélites..."olha que temos de dar continuidade a isto".....estás a perceber...oh...Xico.????"
Eu sabia muito bem o que o Grilo me queria dizer com aquilo....e fiz-lhe a vontade com todo o gosto, passadas algumas horas, embora um pouco baralhado e confuso....lá estava eu a receber primeiro, os sons característicos das informações enviadas pelo satélite, depois então...as imagens dos  Satélites NOOA 12...15...17.
As primeiras saiam tortas...escuras....brancas...cheias de grão....ou simplesmente não recebia nada, mas após uns QSO´s em Banda Cruzada  nos 145.350 MHz/434.350 MHz com o Grilo, tudo me foi devidamente esclarecido e posto a funcionar correctamente, vejam lá que até aprendi a dizer sem dificuldade " Keplers.!!!!
O que eu aprendi com o Jovem Grilo.!!!!!
A minha próxima etapa irá ser ....as manchas solares e os astros.!!!
                                                                 
Nota:

Como todos os Cientistas e todos os estudiosos, eles raramente gostam de falar sobre si próprios....temos de ser nós, a ir ao seu encontro e, faze-los transpor cá para fora a sua sabedoria, a sua experiência, a sua capacidade ( quem não se lembra do falecido CT1WW-Tiago; e do nosso vivinho de Benavente Colega Mário Portugal-CT1DT.???).
Portanto..... Caros Colegas....em especial aos Colegas mais Jovens....se gostam de conhecer coisas novas, se gostam de explorar o Universo, saber coisas sobre astronomia, trocar impressões sobre telecomunicações, conhecer um autentico laboratório caseiro de exploração espacial....se gostam.???...então um dia que possam, visitem o nosso Colega Grilo CT1DY, posso garantir-lhes que não vão dar por mal empregue o tempo da vossa visita.
Façam sentir ao Colega Grilo, que o seu esforço não está a ser feito em vão....façam sentir ao Grilo que ele tem muito que nos ensinar e nos dar da sua sabedoria, das suas experiências, do seu longo percurso como Radioamador e Homem das Ciências, pois se assim não for.....ele vai continuar a dizer-me: - oh...Xico..."olha que temos de dar continuidade a isto pá".....


Francisco José Martins Gonçalves
                                 CT1DL
                             Junho 2013

sábado, 16 de março de 2013


O Meu Local de Tempos Livres

       É este o aspecto do meu novo Shack, em Março de 2013

Após um dia de trabalho, é aqui neste local, que passo algum do meu tempo livre a conversar com os Amigos Radioamadores, de coisas da Rádio, de Técnicas, de assuntos diversos, relacionados quase sempre com o Radioamadorismo.
Tenho aqui, ao alcance das minhas  mãos....o MUNDO das Radiocomunicações.


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Capitulo VI

“…Oh…Gonçalves….sabes uma boa.???
…está hoje de Oficial de Dia…um gaijo lá do Norte
que diz que também é Radioamador como tu, pá !!!….”

Num final de tarde e após o jantar, estava calmamente a dar uma daquelas aulas suplementares aos meus colegas de turma, quando chega um outro colega meu porta adentro, meio esbaforido e diz-me aos gritos: “ …Oh…Gonçalves…sabes uma boa.???...está hoje de Oficial de Dia…um gaijo lá do Norte, que diz que também é Radioamador como tu, pá!!!….”
Aquilo fez-me logo arrebitar as orelhas!
Radioamador, perguntei???
Sim pá….é um Alferes Miliciano “Parafuso” que diz que é Radioamador, é da zona de Viseu salvo erro, tu talvez até conheças o gaijo.!!!!
Fiquei logo curioso….mas continuei a dar a minha aula, até porque estávamos a dar uma matéria muito “gira” que era a propagação nas diversas bandas de onda curta e VHF-UHF.
Contudo, fiquei logo de pé atrás, resolvendo deixar o assunto para o dia seguinte e uns momentos antes do render da guarda que era ás 9 horas, talvez tivesse hipótese de contactar e conhecer aquele meu colega Radioamador.
Assim aconteceu na verdade.
Momentos antes das 9 horas da manhã, já eu estava junto ao edifício do Comando da EMEL, mesmo em frente á Parada, tentando informar-me quem era então o Oficial Radioamador de Viseu que me tinham falado.
Com alguma dificuldade, lá consegui então chegar então junto de um Sr. Alferes Miliciano da Força Aérea, que estava de Oficial de Dia e que iria sair de serviço dali a instantes.
Com uma continência obrigatória…apresentei-me como Militar ao Oficial de Dia, tendo em seguida comunicado ao mesmo, o motivo que me tinha levado ali.
O Oficial de Dia, começou a rir com um ar simpático, que me levou logo a pensar: - “este gaijo deve ser mesmo Radioamador, tem um ar tão porreirão da malta do Norte…carago.!!!!”
Foi então que o Alferes Miliciano se apresentou, informando-me que sim era Radioamador, vivia em Viseu, e era o CT1 Alfa Lima, informando-me que nós já tínhamos comunicado algumas vezes nos 40 metros.
Um outro Oficial ia a passar no local naquele momento, então o CT1AL chamou: - “Oh….Pires (CT1XA), chega aqui, olha este OM também é nosso Colega Radioamador…é o CT1Delta Lima aqui de Lisboa.!!!
A partir dali travámos alguns QSO’s de metro, enquanto permanecemos na EMEL, mas infelizmente tanto o Adelino CT1AL, como o Pires CT1XA pouco tempo depois, mudaram de Unidade, tendo perdido o contacto com ambos durante algum tempo, voltando ao contacto com os dois, mais tarde nos 40 metros (ainda nos tempos do AM).
E foi assim, que conheci ali mesmo, dois AMIGOS e Colegas Radioamadores que tantas saudades me deixam daqueles tempos.
Com o Pires CT1XA perdi completamente o contacto, com o meu AMIGO Adelino CT1AL, mantemos a nossa PROFUNDA E ETERNA AMIZADE .!!!!!
Capitulo V

“Se logo na Aula da Tarde, não me provas isso que acabas
de dizer…. deste neste momento, um passo em frente,
para seres mobilizado como atirador para a GUINÉ??”

Este foi o maior susto, que apanhei na minha Vida de Militar, quando ainda estava na EMEL em Paço de Arcos.

Numa manhã radiosa de Verão, estávamos em plena aula de Transmissões Rádio e Antenas, (…que ocasionalmente estava a ser dada, por um 1º.Sargento (gordo lateiro) da Força Aérea, em substituição temporária do jovem Capitão Miliciano da Força Aérea, que tinha ido em diligência ao Norte do País…) quando demos inicio a uma matéria que me era muito familiar e que eu adorava imenso “Princípios de funcionamento do Transmissor de CW e AM - Modelo AN-GRC-9”.
Logo de inicio que me pareceu, que o 1º. Sargento não se sentia muito á vontade a falar desta matéria, uma vez que se limitava a ler o Manual de Instruções, sem nunca se desviar daquilo que o Fabricante referia nas características, descrições e nas funcionalidades do equipamento.
Tudo parecia correr muito bem naquela aula, quando a dada altura da explicação dada pelo Instrutor, foi afirmado por este o seguinte: “ ficamos então a saber… que este equipamento… só pode emitir e receber… em CW (Telegrafia) e AM (Amplitude Modulada) e mais nenhum tipo de modulação….”.
Então… aconteceu aquilo que eu não estava nada á espera que acontecesse, pus a mão no ar e perguntei ao 1º. Sargento: “…mas meu 1º…. , o AN-GRC-9 pode também receber BLU (Banda Lateral Única, do Inglês SSB-Single Side Band) embora não possa emitir, não é.???”.
De imediato, o Instrutor e disse-me: “…claro que não pode receber BLU… o RACAL TR-28 é que tem essa particularidade…”
Ao que eu respondi: “..olhe que pode…meu 1º…o AN-GRC-9 recebe também BLU em todas as bandas.!!!!”
E aqui…meus Amigos… tinha-se acabado de instalar a confusão na Aula, naquela manhã calma e aprazível de Verão.
O 1º. Sargento olhou para mim indignado e com um ar arreliado e furioso, apontou-me o dedo indicador da mão direita na minha direcção, e disse em vóz alta, completamente alterado dos nervos:
“…Olhe lá…ponha-se em pé!!…já lhe disse que este equipamento não pode receber BLU (SSB), o Manual diz exactamente isso, no entanto você que é teimoso e burro, continua a afirmar que sim. Afinal o que é que você percebe desta porcaria, para estar constantemente a contradizer aquilo que eu lhe estou a explicar a si e aos seus Colegas.???”
Estupidamente, em vez de ficar calado e fazer o papel de Yes Men, respondi: “…mas meu 1º…. eu sei o que estou a dizer, o AN-GRC-9 receber BLU…disso tenho a certeza.!!!”
O 1º. Sargento com ar espavorido e desorientado, olhou para o relógio… gaguejando imenso gritou a bom som, com toda a força dos seus plumões na minha direcção: “Se logo na Aula da Tarde, não me provas isso que acabas de dizer…. deste neste momento, um passo em frente, para seres mobilizado como atirador para a GUINÉ”
Fez-se um silêncio mórbido na aula…todos abandonámos a sala, sem proferir uma única palavra, com todos os meus Colegas a olharem para mim com ar de preocupados, alguns até com uma lágrima ao canto do olho, tal não tinha sido, o terrível ambiente ali vivido, momentos antes.
E eu… perguntam vocês daí.???
Pois bem….como dizia o saudoso António Silva, “estava completamente…dessincronizado”
Fui direito á caserna e como ainda não estava na hora de almoço, fui tomar um duche rápido de água bem fria, para resfriar as ideias e os nervos, pois eles eram mais que muitos naquele momento.
A cada minuto que passava, só me vinha á ideia aquela afirmação que me tinha tocado no fundo da alma e do Coração: “Se logo na Aula da Tarde, não me provas isso que acabas de dizer…. deste neste momento, um passo em frente, para seres mobilizado como atirador para a GUINÉ”
Fui almoçar apenas para poder tirar a falta do almoço, embora não tivesse tocado no comer, pois tinha perdido o apetite depois daquilo que se tinha passado.
Muitos dos meus Colegas da Turma ( e meus alunos á noite ), deram-me apoio moral, confortavam-me a cada instante, sentia uma onda de solidariedade tremenda, pois eles estavam certos que eu sabia o que estava a afirmar, contudo na Tropa e para um “maçarico” como eu, a coisa podia complicar-se se alguma coisa corresse mal.!!!
Via as horas a passar, os nervos apoderavam-se de mim cada vez mais …estava inquieto…até que lá chegou a hora de ir-mos para a aula da tarde de Princípios de funcionamento do Transmissor de CW e AM - Modelo AN-GRC-9.
Quando entrámos na sala, já lá estava colocado em cima de uma mesa, um AN-GRC-9 novo, com o respectivo alimentador e um dipolo de campanha, devidamente ligado a ficha de antena.
Todos tomámos os nossos lugares, olhei para aquele “estandarte” todo e disse muito baixinho para os meus botões..”Oh Gonçalves… se não mostras o que vales, estás F…..…do pá!!!…Vai-te a ele, caraças.!!!”
Minutos depois chegava o 1º. Sargento com um ar triunfante e mais calmo, vinha acompanhado de um outro Oficial, certamente para assistir ao meu enterro naquela tarde.
O silêncio era mais que muito…ouviam-se apenas as respirações ofegantes dos meus Colegas, pois a minha tinha impressão, ter já parado fazia algum tempo.
Boa tarde a todos…tal como tínhamos falado na aula da manhã, temos aqui um “pequeno” problema para resolver, relativamente ao Aluno Nº. 428 o Sr. Francisco Gonçalves, que então…vai ter de me demonstrar bem como a todos vós, que o Equipamento AN-GRC-9 pode receber…segundo ele afirma…BLU.
Para isso, previamente pedi que fosse montado ali naquela mesa, um desses equipamentos, um alimentador e uma antena.
Meu Caro Sr. Francisco Gonçalves-428, faça favor o rádio é todo seu.!!!!
O seu ar prepotente e de gozo olhando para o seu colega Oficial, irritava-me solenemente…levantei-me…as pernas e as mãos tremias cada vez mais, o silencio da sala ofuscavam-me as ideias e os movimentos, parecia que tudo estava á espera de ver abater a fera.!!!!
Fui até á mesa onde estava o AN-GRC-9….liguei o alimentador, verifiquei a ligação da antena e pelo canto do olho, via a cara de riso e gozo do 1º. Sargento a olhar para o seu Colega Oficial, como que a dizer:
…”o gaijo está lixado pá, nem sequer consegue ligar aquela tralha toda…quanto mais por aquilo a receber BLU”.
Com as mãos cada vez mais trémulas, localizei o comutador de bandas, coloquei-o na faixa que cobria os 7MHz (40 metros) e sem que antes, pedisse em silencio ao Universo, que me desse força e coragem, para me sair bem daquela embrulhada em que me tinha metido…liguei o ON-OFF do equipamento….Tráu….aguardei uns segundo e começamos a ouvir uma “sopradeira” característica da banda dos 40 metros (nada parecida com aquela que temos nos tempos actuais….estávamos então em 1972, não havia QRM…)…rodei lentamente o dial de sintonia e ….olá…que era aquilo??...parecia-me ter escutado alguma coisas minha conhecida…era um Radioamador ali a transmitir em SSB.!!!
Enquanto procedia a esta operação, mantive-me calado que nem um rato, para grande espanto dos meus Colegas de turma e dos próprios Oficiais ali presentes.
Mais um retoque no dia, virei-me para o 1º. Sargento e seu acompanhante e disse-lhe: “…meu 1º. já sintonizei aqui uma estação, que está a transmitir em BLU, agora é só ligar este botão de CW e pronto….quer ver.???
Mal acabei de ligar o BFO, ajustei-o cuidadosamente e consegui logo á primeira escutar com um sinal fabuloso o CT1PK-Dr.Fragoso de Almeida do Cartaxo, em comunicação com o CT1AP-Professor Martinho em Alcanhões.
Bingo!!!!Yes…Yes…Yes…estava conseguido o objectivo.!!!!
Então…com uma dificuldade tremenda, com as pernas ainda a tremerem que nem varas verdes, virei-me para os dois Oficiais, que estavam de olhos esbugalhados e com caras de espanto, disse-lhes:
“ como vê meu 1º. aqui está o senhor a receber uma emissão em BLU em perfeitas condições, agora vou desligar o BFO para se aperceberem daquilo que se escuta sem o Beat Frequency Oscillator ligado.
De imediato se começou a escutar, o som característico duma emissão em SSB, sem a onda residual de suporte, o que levou o meu Caríssimo 1º. Sargento e o seu acompanhante a ficarem totalmente boquiabertos de espanto, pois eles apenas se regiam por aquilo que o manual militar referia nas características gerais do equipamento.
Mas mesmo assim, ainda quiseram saber em pormenor, como é que eu sabia que aquele equipamento recebia BLU, bem como é que eu tinha descoberto aqueles sujeitos a falar ali naquela frequência.????
Tive então….agora com mais calma, que explicar-lhes que era Radioamador e que tinha uns conhecimentos sobre os diversos tipos de emissão, bem como as suas potencialidades.
Ficaram ambos rendidos.!!!!
Não disseram mais nada…olharam um para o outro indignados e o 1º. Sargento que nos dava aulas disse:
“bom…bom…vamos então deixar este assunto de lado e continuar com a nossa aula…que já perdemos muito tempo com isto do BLU e dos Radioamadores!!!”
Continuamos a aula calmamente, sem que nunca mais se ter ouvido falar de BLU.
Fiquei então mais aliviado, quando no final da aula me dirigi ao 1º. Sargento e o questionei: “…desculpe meu 1º….sobre aquela coisa da mobilização para a Guiné, como é que ficamos.????”
Ao que ele respondeu de imediato, com ar de gozo e sorriso na face: “Então pá…já não me conseguiste provar o que te pedi.???? Então está tudo resolvido…ou queres mesmo ir para a Guiné.???”
Ah….é verdade…esqueci-me de vos dizer que omiti um pequeno pormenor ao meu querido 1º. Sargento, que foi: “…o de que eu já tinha tido um equipamento daqueles em minha casa, adquirido num ferro velho em Linda-a-Velha e como tal, sabia sobejamente bem trabalhar com ele, assim como as suas potencialidades, as quais me apercebi que ele desconhecia na totalidade…”
A partir dali….comecei a ser visto pelos meus colegas da turma como um Herói, todos me davam os parabéns por tudo ter acabado daquela forma vitoriosa, ainda por cima, por ter sido uma luta desleal entre o David (que era eu) e Golias (que era o 1º.Sargento).
Coisas da Vida…!!!.
Mas não ganhei para o susto, acreditem.!!!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

RELEMBRANDO OS AMIGOS - A RECRUTA


O Serviço Militar, o 25 de Abril, as Telecomunicações e claro…o Radioamadorismo
Quero hoje partilhar convosco alguns episódios curiosos, passados durante a minha permanência ao Serviço do Exército Português, no período dos anos 72 a finais de 74.

As histórias são verdadeiras e alguns dos nomes fictícios, para não chocar ou ferir susceptibilidades.
_______________________________________
Capitulo I
A Partida para a Recruta

Estávamos a 8 de Abril de 1972, tinha chegado a altura de dar o meu contributo e prestar serviço Militar obrigatório no Exército Português, assim... apresentei-me em Beja no RI3 (Regimento de Infantaria 3) para dar inicio á minha Recruta, ali bem no coração “quente” do Alentejo.
Tinha em meu poder uma “guia de marcha” com destino a Beja, embarquei num comboio especial, totalmente cheio de “malta” da minha idade, que tinham obrigatoriamente de servir o Exército Português durante um período de tempo mínimo de 2 anos, com a agravante de na maioria dos casos, serem deslocados para as diversas Ex-Colónias Portuguesas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e Guiné.
Muitos deles, infelizmente por lá ficavam ( morriam em combate ) e não mais voltavam á sua Terra de origem, motivo pelo qual na maioria dos casos, quando ingressávamos na Tropa e nos despedíamos da Família, não sabíamos se nos voltaríamos a ver .!!!!
Era uma situação complicada, cruel, violenta, para a “malta” daqueles tempos, até porque naquela época não tinham a experiência de vida que felizmente a juventude actual desfruta.
Muitos, nunca tinham saído de casa dos Pais, nem da Terra que os vira nascer, viviam na Província, tratavam do gado, cultivavam o campo, alguns nunca tinham ido á Escola, não sabiam ler nem escrever….eram completamente analfabetos, dos pés á cabeça.!!!!
Motivo pelo qual, muita dessa Juventude era tentada a fugir para França, na esperança de não ter de lutar por uma causa… que parecia cada vez mais…perdida.!!!!
Passada uma boa hora e meia da hora prevista, lá partimos em direcção a Beja, com a “malta” toda eufórica uns aos gritos, (para não chorar…) outros mais comedidos ( que era o meu caso…) e outros indiferentes.
Durante a viagem que durou apenas 9 horas, (qual TGV… qual Inter-Cidades.!!!) e depois de toda a “malta” estar mais calma, começavam-se já a fazer sentir as saudades da Família, da Terra, dos Pais, dos Irmãos e nalguns casos também das Mulheres e dos Filhos.
Dentro das nossas cabeças e durante o tempo de viagem, foram-se soltando as preocupações, os sentimentos, as responsabilidades, os medos, enfim….um sem numero de coisas que nos iam na alma e que serviam para reflectir-mos um pouco daquilo, que dali para a frente seria o nosso futuro, a nossa nova casa, a nossa Vida…. “A TROPA”.
Por volta das 20 horas….finalmente chegámos a BEJA….quente, escaldante, sufocante, moderna, terrivelmente calma e Bonita.
Fomos transportados por autocarros do Regimento de Infantaria 3 para o Quartel, que ficava a cerca de 2 Km do centro da Cidade.
Como já não eram horas decentes, deram-nos de comer alguma coisa no refeitório, indicaram-nos onde iríamos pernoitar e fomos avisados pelo Sargento de Dia de serviço das regras que teríamos de começar a cumprir a partir daquele momento.
No dia seguinte e após as boas vindas, dadas pelo 2º. Comandante da Unidade (…que na altura era o
Tenente Coronel Coelho de Lima – Filho do dono Empresa de Confecções Nortenha COELIMA…já extinta, creio…), fomos encaminhados para as respectivas Companhias e aí foram-nos oferecidas roupas (novinhas a estrear) para começar-mos a usar, a qual nos iria acompanhar durante todo o período que estivesse-mos ao serviço do Exercito Português.
Se hipoteticamente, danificássemos ou deixássemos roubar, alguma peça de roupa que nos tinham atribuído, teríamos de a repor ou então pagar da nossa algibeira, a importância respectiva.
Havia pois, de estar alerta e de olhos bem abertos!!!
Tudo comigo ia correndo dentro da normalidade, até porque eu ia instruído no sentido de ser o mais discreto possível, bem comportado, obediente, educado e acima de tudo tinham-me ensinado uma regra que tentei sempre cumprir á risca: – “na tropa… nunca te ofereças como voluntário… nem para comer…”.
Logo de manhã tínhamos a alvorada, a formatura, o pequeno almoço, a ginástica, a instrução militar.
De tarde havia instrução militar, operação e armamento.
Entretanto, tínhamos intervalados ao longo da semana os serviços (fascinas)diurnos e nocturnos.
Como podem calcular, era uma bela vida …tranquila…divertida, que para muitos dos jovens não passava de um massacre psicológico e uma pré-preparação para o Inferno que os esperava.

Capitulo II
Corte de Fim de Semana


Uma Quarta feira, na formatura do almoço, estava de Oficial de Dia á Unidade, um Senhor Aspirante Miliciano Vítor Alhinho (na época Jogador do S.L.Benfica) que ao passar revista á parada, parou junto de mim, retirou uma carteira de fósforos da algibeira do blusão, raspando-a na minha cara e disse-me com ar arrogante e irritado: “olha lá pá…não tiveste tempo de fazer a barba de manhã.???...se me apareces cá…na formatura da tarde com a barba assim…ficas de fim de semana no quartel e não vais a casa…”
Aquela afirmação, caiu-me que nem uma bomba dentro de mim.!!!!
Tentei então explicar-lhe, com os devidos “saramalécos” que se usavam na tropa, que tinha a barba muito cerrada mas que tinha feito a barba de manhã, só que fazia-a com máquina de barbear eléctrica, pelo que não se conseguia deste modo, uma barba perfeitamente escanhoada.
A resposta foi crua e simplesmente esta: “ sim…sim…não me apareças cá logo ás 2 da tarde com a barba feita como deve de ser… e vais ver o que te acontece.!!!!”
É evidente… que a minha preocupação mal saí da formatura, foi pedir ao um colega meu da Companhia, uma “gillett” e fazer a barba novamente, desta vez bem escanhoada, pois corria o risco de ficar de fim de semana cortado e vir-me privado de ir a casa a Lisboa.
Após o almoço, lá fui para a formatura da tarde, e qual não foi o meu espanto, quando vejo o Senhor Aspirante Miliciano Vítor Alhinho, vir direito a mim, para verificar se eu tinha feito de novo a barba.
Mirou-me calmamente dos pés á cabeça, dizendo: “…estás a ver…assim já evitas-te ficar de castigo este fim de semana…que te fique de emenda…”.
Fiquei tranquilo e descansado com aquela afirmação, e prossegui a minha vida normalmente durante o resto da semana.
Eis que….é chegado o sábado (11 horas da manhã), dia de recebermos os passaportes de fim de semana, que eram entregues nas respectivas Companhias da Unidade, pelos Sargentos de dia.
Começaram então a chamada: “ 418…ouviu-se de imediato…pronto e entrega do respectivo passaporte com saída da formatura e entrada no autocarro que nos conduziria até Lisboa.!!!. depois 419….pronto, 420…pronto, até que saltaram o 428 e passaram para o 429 e assim sucessivamente até ao 500.Fiquei calmamente á espera que chamassem o meu numero que era o 428, mas nada.!!!!
Chamei á atenção do Sargento de dia de serviço, na esperança que ele se tivesse esquecido de chamar o meu numero, sendo-me informado então que o meu numero não constava nas emissões dos passaportes da Companhia.
Fiquei… como devem calcular, para morrer de raiva, mas…calmamente pedi para me verem qual era o motivo de não me emitirem o passaporte.
Após ter aguardado calmamente, já com todos os meus colegas dentro dos autocarros e partido para os diversos locais de Norte a Sul do País, foi-me comunicado que me tinham cortado o passaporte de fim de semana, pelo Oficial de Dia Aspirante Miliciano Vítor Alhinho.
Como se isso não bastasse… estava na escala de fascina ao refeitório, no Domingo durante todo o dia.!!!!Foi aqui… que senti a minha primeira “grande revolta”, não… por não me terem deixado ir de fim de semana, mas sim pela forma cruel como o assunto foi tratado, “…estás a ver…assim já evitas-te ficar de castigo este fim de semana…que te fique de emenda…”.
E ficou….acreditem, dai para cá nunca mais pude ouvir falar do nome “Alhinho”, pese embora continue a ser simpatizante do meu Glorioso S.L.Benfica.

Capitulo III
Tempo de laser na Recruta

Certo dia, na formatura da manhã, ouviu-se na aparelhagem sonora da Parada, uma informação que alertava para os “mancebos” das diversas Companhias, que se tivessem jeito para desenhar ou pintar, dessem um passo em frente.
Ora como eu tinha sido instruído no sentido de: “na tropa… nunca te ofereças como voluntário… nem para comer…”, fiquei hesitante…confundido, baralhado, sem saber o que fazer…pois tinha de decidir dali a alguns segundos.!!!
Sem saber porquê….nem porque não…dei um passo em frente.!!!!
Pensei então: “seja o que Deus quizer….”
Dei uma espreitadela pelo canto do olho, e reparei, que de todas as Companhias apenas cinco colegas tinham dado um passo em frente, comigo incluído.
Saímos todos da formatura e fomos então repescados pelo Oficial de Dia á Unidade, levados para o edifício do Comando, colocados numa Sala de espera, onde alguns minutos depois, um Capitão nos veio explicar qual o propósito daquela chamada, que era a seguinte:
A Unidade precisava de construir cerca de 50 placas em alumínio, com 40x30x30 cm, em forma de V invertido, onde seriam desenhadas e pintadas algumas figuras que constavam no livro de ginástica dos instrutores.
Estas eram destinadas a serem colocadas pelos Oficias responsáveis pela Educação Física, nos diversos pontos, onde a “malta” pararia e teria de executar os exercícios mencionados nas respectivas placas, sobre os olhares atentos dos responsáveis.
Para tal, o Capitão iria fornecer papel, lápis e borrachas e todos, bem como algumas figuras constantes do livro da ginástica, com vista a cada um de nós desenhar livremente as imagens respectivas nas folhas que nos foram fornecidas.
Não havia limite de tempo, tínhamos toda a manhã para o fazer.!!!
Bom….achei a ideia “porreira”…pois tinha-me livrado da instrução debaixo de um calor abrasador de uns bons 37º C que era a temperatura média em Beja naquela altura do ano.
Após umas boas 2 horas dei por terminada a minha tarefa, para grande espanto dos meus colegas e do Oficial ali presente.
Já concluiu os desenhos, perguntou-me.???
Após a minha resposta afirmativa, disse-me: “pode entregar-me então e pode aguardar aqui mesmo na sala que os outros colegas seus acabem os respectivos trabalhos…”
Fiquei calmamente, a aguardar que os outros acabassem as provas, sem contudo perguntar a mim mesmo, como é que eu me tinha metido naquela alhada!!!
Quando todos tinham já terminado as suas provas, preenchemos um formulário, com a nossa identificação, Companhia, idade, profissão, etc…etc. tendo-nos sido dadas instruções, para que aguardasse-mos o resultado que seria dado durante a parada, após o almoço.
Fiquei angustiado e nervoso, pois não sabia o que é que aquilo iria dar, e começava-me a lembrar a cada momento da frase: “na tropa… nunca te ofereças como voluntário… nem para comer…”.
A hora de almoço custou a passar, sem que contudo durante este período alguns colegas meus da Companhia me interrogassem sobre a minha aventura durante a manhã.
Lá fomos para a formatura das 14 horas…, tremiam-me as pernas como “varetas” de chapéu de chuva em dia de temporal.
Após algum nervosismo, e após efectuadas todas as chamadas nas respectivas Companhias, para verificar se não se tinha perdido ninguém durante a hora de almoço, ouviu-se finalmente na aparelhagem sonora da Parada, a informação pela qual eu tanto esperava:
“…atenção…atenção…pedem-se aos soldados números 000 Carlos Alberto da 1ª. Companhia, e Soldado 428 Francisco Gonçalves da 2ª. Companhia, que após o destroçar, se dirijam ao Comando desta Unidade, pois foram apurados nas provas de desenho e pintura desta manhã, para execução do trabalho já vosso conhecido…”
As pernas deixaram de tremer…fiquei mais calmo…confiante e lá me dirigi juntamente com o outro meu Colega, até ao edifício do Comando, na espectativa de receber as instruções sobre aquele acontecimento histórico da maior relevância (…onde é que eu já ouvi…isto…oh CT1FBF-João Costa…) na minha Vida Militar.
Fomos recebidos então pelo Oficial de Dia á Unidade e pelo Comandante da mesma, tendo-nos sido comunicado os motivos que levaram os responsáveis, a termos sido escolhidos para efectuar aquele serviço, mas… com grande surpresa nossa, ficámos a saber que a partir daquele dia, não faríamos mais serviços á Unidade, nem instrução.
A partir dali, foram dois meses de descanso e lazer, contrariamente aos nossos colegas que infelizmente tinham de suportar as altas temperaturas e as longas caminhadas ao longo dos dias escaldantes do Alentejo em tempo de Verão.
Valeu a pena…e afinal, aquela indicação que me tinham dado que: “na tropa… nunca te ofereças como voluntário… nem para comer…”, afinal não era verdade.!!!!!
Como consequência deste feito, fiquei classificado em 5º. lugar na recruta.
Como nas minhas indicações preferenciais faziam parte, a minha aptidão pelas telecomunicações,uma vez
que já nessa altura era Radioamador com indicativo de CT1DL, foi-me dado a escolher, se queria ir para o Curso de Radiomontador em Paço de Arcos, ou outro local nos arredores de Lisboa, uma vez que habitava nos Olivais Sul em Lisboa.
Bingo!!!…era mesmo aquilo que eu queria…ir para Paço de Arcos, para o Curso de Rádio.!!!!
Naquela altura, já tinha apanhado a “terrível” doença que ainda hoje... não consegui curar, por mais remédios e antibióticos que tenha tomado, sem contudo ter obtido qualquer resultado prático… era o “Radioamadorismobacilócocus”.... bactéria altamente contagiante, perigosa e demolidora.
Infelizmente vim a saber, que muitos dos meus Colegas da Recruta no RI.3 em Beja, foram mobilizados directamente para a Guiné e Angola, locais onde o Exército Português estava abraços com a Guerrilha que se fazia intensificar enormemente, nestas locais das Ex-Províncias Ultramarinas de Portugal.
Tive conhecimento, quando já estava em Paço de Arcos, que o Cabo Miliciano da minha Companhia que nos dava instrução de Ginástica ( Cabo Miliciano Bica, natural de Beja), tinha acabado de falecer, quinze dias após ter chegado a Bissau, na Guiné.
Era a Guerra… que estava a aumentar, logo tínhamos cada vez mais os nossos corações em sobressalto, havia de fazer tudo para evitar sermos mobilizados, o “estudar era uma arma” portanto, tive de a usar para não morrer.!!!!
Vamos para Paço de Arcos….em frente….marche.!!!!!!


Capitulo IV
As minhas Aventuras na EMEL - Escola Militar de Electromecânica
Paço de Arcos

Cheguei a Paço de Arcos em meados de Julho, já com a Recruta feita e a cheirar a “maçarico” novo, com fardinha de Feijão Verde.
Fiquei na 1ª. Companhia de Instrução, no local a que na tropa se designava o Hotel de Paço da Arcos.
Isto porque, as condições que tínhamos naquela Escola, eram fora do normal para o Exército daquele tempo, em que Portugal estava abraços com uma Guerra Colonial.
Tínhamos uma qualidade de alimentação especial, as refeições eram servidas á mesa em travessas, por funcionários do refeitório, com camisa branca e calça preta, tínhamos salas de estudo pós laboral, entrávamos e saímos á Civil, tínhamos um horário das 9 da manhã ás 17 horas, com almoço das 12 ás 14 horas, enfim….”gente fina, era outra coisa!!!”
Aquilo agradava-me de certo modo, estava perto de casa, quase dentro de Lisboa, tinha ali do outro lado da Marginal a Praia junto ao Forte da Marinha, e até tinha ali bem perto de mim, a casa de um Colega Radioamador (infelizmente já falecido também) que era o CT1AN-Nascimento.
Um dia, ao conversar com um colega da minha Companhia, o mesmo manifestou-me a grande dificuldade que estava a ter em entender a matéria que estávamos a dar, uma vez que tinha tirado um Curso de Rádio e Electrónica, numa daquelas Escolas em que a matéria era dada por correspondência.
Logo não tinha bases muito sólidas sobre a matéria, nomeadamente sobre as classes de amplificação das válvulas, assim como entender os esquemas teóricos que vinham nos manuais, entre outras coisas.
Disponibilizei-me logo a ajudá-lo, dentro da medida do possível, pois como durante a semana não ia todos os dias a casa, poderíamos combinar umas horas depois do jantar e em vez de irmos para o café, juntávamo-nos lá num sitio sossegadinhos e tentaria calmamente explicar-lhe as suas duvidas.
Assim aconteceu….começámos por nos juntar-mos lá no quartel numa sala de convívio, só que no dia seguinte já haviam mais dois Colegas que tinham pedido para se juntarem a nós.
Uma semana depois, tinha mais uns quantos que também estavam misturados no grupo, totalizando já uns 15 alunos.
Aquilo rapidamente passou de boca em boca, até chegar aos ouvidos dum jovem Capitão (Parafuso) Miliciano da Força Aérea, que por acaso nos dava aulas de Transmissões Rádio e Antenas.
No dia seguinte, tivemos aula com esse Capitão que me quis conhecer, tendo-me feito em particular, uma série de perguntas, explicando-lhe então que era Radioamador, daí a minha facilidade em entender toda aquela matéria.
O Capitão disse-me, que ia tentar junto do Comando da Unidade, pedir autorização no sentido de nos ser facultada uma sala, para podermos dar aquelas aulas extras da matéria, destinada aos Colegas que sentissem necessidade e que durante o decorrer daquele dia, eu seria informado se tinha ou não sido autorizado.
Por volta das 17 horas, fui informado pelo próprio Capitão, que a autorização Superior tinha sido concedida e que a partir daquela data não teríamos de andar a juntarmo-nos na sala de convívio.
Comecei então, uma nova etapa da minha Vida Militar….ter aulas de dia… e dar aulas á noite.!!!!
Passados alguns dias, tinha já uma plateia de Colegas meus que rondavam os 30 alunos.
Tive ocasião de lhes explicar e faze-los entender a lerem os esquemas teóricos, a desenhar um esquema de blocos, a calcular uma antena dipolo, a entenderem os efeitos da propagação em Onda Curta, VHF e UHF, as teorias sobre os diversos tipos de emissão, AM-FM-BLU (Banda Lateral Única)…etc…etc… e claro falávamos imenso sobre o Radioamadorismo….eu estava como peixe na água.!!!!
Foi para mim muito gratificante, chegar ao fim do Curso e ter verificado que daqueles 30 Colegas meus que inicialmente estavam em apuros, todos eles superaram os medos e as duvidas que tinham, tendo alguns deles obtidos resultados finais, surpreendentes.!!!
Só por isto…achei que valeu a pena ter prescindido de ir a casa durante a semana, de ter ido ver as “xavalecas” ao Jardim de Paço de Arcos ao fim da tarde, ter ido visitar mais vezes o CT1AN, enfim…valeu mesmo a pena….encheu-me o EGO.!!!!
Bom….mas o mais engraçado aconteceu, logo dois dias depois desta aventura.
Todos os alunos da Escola, tinham uma escala de serviço que os nomeavam um dia por semana, a fazerem uma noite de reforço á Caserna ou á Porta de Armas.
Comecei a estranhar, que o meu Numero não aparecia na minha Companhia, escalado para fazer qualquer tipo de serviço, o que me levou a ir á Secretaria perguntar a um Colega que lá estava “impedido” que me explicasse tal facto.
Para grande espanto meu, foi-me comunicado que por acordo entre a Companhia e as pessoas intervenientes, os meus serviços eram feitos pelos Colegas a quem eu estava a dar as aulas suplementares.
Resultado….nunca mais fiz Serviços, durante todo o tempo que estive na EMEL, pois a partir daí, nunca mais me preocupei com tal coisa….os meus Colegas Alunos tratavam do assunto.!!!!

Elaborado por:
Francisco Gonçalves
CT1DL
Abril 2011



terça-feira, 10 de agosto de 2010

“NOS BONS VELHOS TEMPOS...EM QUE OS RADIOAMADORES IAM AOS ERVANÁRIOS”

Muitos dos novos Colegas Radioamadores, certamente já escutaram nalguns QSO’s de Amadores mais antigos, o termo “ervanário”.
Era este o nome, pelo qual se designavam os Ferro Velhos que serviam de “supermercados” aos Radioamadores dos anos 60’s, 70’s e 80’s.
Nessa altura, como devem de calcular, não era fácil aos amadores poderem dispor de material de alguma qualidade para fazerem as suas experiências com emissores, receptores, pré-amplificadores de antena, antenas, fontes de alimentação, etc...etc...
Além de que, no mercado comercial nessa altura não abundavam Firmas que dispusessem de material vocacionado para esta área especifica de radiocomunicações, pois os esquemas e artigos de revistas que dispunha-mos nessa altura eram de origem Americana, Inglesa ou Alemã, cujo mercado interno desses Países estavam mais desenvolvidos comercialmente.
Daí que, a maior dificuldade que logo nos surgia quando pensávamos deitar mãos á obra em qualquer construção, era a aquisição dos componentes, sem fugirmos ás especificações dadas pelos seus autores, evitando assim os amargos de boca, dores de cabeça e o desespero do insucesso da construção, que por vezes durava semanas e nalguns casos meses.
Nessa altura em Portugal mais concretamente em Lisboa, haviam a RUALDO, RADIO LUX, GELOSO, ONDEX e PINTO LEITE na Cidade do Porto.
De todas, só uma ou outra disponibilizava acessórios ou componentes avulso e a preço acessível ás bolsas dos radioamadores que nessa época auferiam salários médios de 3-4 mil escudos mensais.
Estes Ferro Velhos geralmente e salvo algumas excepções, adquiriam ás Forças Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea) equipamentos obsoletos, avariados, fora de serviço e que geralmente provinham dos diversos Quartéis espalhados pelo País e pelas antigas Províncias Ultramarinas de Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Goa Damão e Diu, pois nessa altura Portugal estava abraços com uma Guerra Colonial de má memória para todos nós.
Esses equipamentos depois de transportados para os ditos “ervanários”, destinavam-se a ser desmantelados, aproveitando-se tudo o que era cobre, latão, alumínio, ferro e então vendidos para a Siderurgia Nacional, ao kilo onde seguidamente eram derretidos nos altos fornos e os diversos metais aproveitados para outras aplicações.
Na pré-fase do desmantelamento nos “ervanários”, alguns Radioamadores tomavam conhecimento através de outros Amadores, pelos próprios empregados dos Ferro Velhos ou até pelos seus donos, que tinham recebido material proveniente do Exército, da Marinha ou da Força Aérea e que seguidamente tudo ia ser danificado.
Era aqui que começava a verdadeira correria aos “ervanários”, na esperança de se conseguirem os melhores materiais em condições de serem aproveitados, para além da sua qualidade, visto a origem ser Militar e consequentemente, apresentarem padrões e níveis de qualidade superiores aos vulgarmente encontrados no mercado Nacional.
Compravam-se nestes locais, a muito baixo custo, coisas preciosas para as nossas experiências, tais como:
-Condensadores variáveis de baixa capacidade isolados a porcelana, da marca “Jonhson” que eram utilizados em equipamentos de VHF e HF nos andares de RF dos diversos andares dos emissores ou nos PI’s de saída de RF; Xtais de diversas frequências militares, mas que serviam perfeitamente para as nossas experiências com transverters, conversores, emissores, receptores; condensadores electrolíticos de alta capacidade 1000 a 50.000 microF, isolados a 100VDC da SPRAGUE ( melhor fabricante Mundial ) para as fontes de alimentação; condensadores de mica isolados a 3KV; isoladores de porcelana para antenas de HF; desmultiplicações mecânicas para elaboração de rotores de antena de fabrico caseiro; microfones; auscultadores; caixas metálicas para os diversos equipamento que se construíam nessa altura pelos amadores; válvulas militares com equivalência civil, tais como QQV03-12, QQV06-40, 6L6GT, 817, 813, 6146B, entre outras.
Lá se conseguiam também arranjar, diversos tipos de parafusos, porcas, anilhas, miliamperímetros, microamperimetros, voltímetros, fio de cobre esmaltado para bobinas, chapa de alumínio para construção de chassis ou caixas para os diversos equipamentos a construir.
Como devem de calcular, eram tempos diferentes dos de hoje, pois era sempre dificil conseguir arranjar aquilo que necessitávamos para realizar os nossos projectos, ao invés de hoje, que vamos á loja e compramos...compramos no EBAY, ou em ultima análise, mandamos vir de qualquer local do Mundo via Internet, assim tenhamos dinheiro para o fazer.

Numa manhã de sábado, um grupo de 7 Radioamadores aqui da zona de Lisboa, do qual eu fazia parte (e o já falecido Diogo CT1EJ), combinámos e fomos a um “ervanário” ali para os lados do Poço Bispo, num velho armazém que alojava uma quantidade enorme de equipamentos de comunicações do Exército, que tinham acabado de chegar do Depósito de Material do Exército em Linda-a-Velha, fazia apenas umas horas.
Aquela informação tinha sido fornecida ao Colega Diogo CT1EJ, através do seu Pai que era funcionário da antiga DSR-Direcção Serviços Radioeléctricos dos CTT em Barcarena, uma vez que era Amigo do dono do armazém em questão.
Na Sexta Feira á noite, o Colega CT1EJ-Diogo, dava indicação a todo o pessoal do grupo, via rádio em VHF:
“...malta...amanhã, todos equipado com alicates de corte e chaves de parafusos Philips e normais....quem tiver alicates de grifto ou chaves inglesas podem levar...se puderem levar também serrotes pequenos, levem, pois vão fazer falta....”.
E lá fomos em romaria, até ao local onde nos tinham informado que havia “volfrâmio”....ou seja.... sucata para podermos desmanchar á vontade...cortar fiarada, aproveitar suportes de válvulas, válvulas, xtais, condensadores, trimmers, transformadores, electrolíticos, desmultiplicações mecânicas, pequenos motores, caixas metálicas, baterias, auscultadores, chaves de morse, isoladores para antenas de HF, componentes diversos e outro tipo de material, estava ali á nossa inteira disposição sem qualquer tipo de restricções.
Entrámos... e fomos recebidos pelo proprietário do armazém, que por indicação do Pai do nosso colega Diogo CT1EJ, nos conduziu até ao local onde estavam todos os equipamentos, que algumas horas antes tinham sido recebidos.
Aquilo deveria ter sido digno de ver de longe....aquelas 7 caras de “parvos” a olhar para aquele amontoado de equipamentos, alguns com aspecto de novos, sem uma única besliscadura....ali mesmo á mão de semear.
“Vamos....fiquem á vontade....e se precisarem de ajuda... dêem uma assobiadela, que eu venho logo até aqui num instante.!!!
Ah....e tenham cuidado rapaziada.... não se magoem aí nas chapas e nos arames, tenham cuidado com isso....vejam lá.!!! “
Olhámos uns para os outros... com ar de aparvalhados, sem saber por onde começar.!!!!
Bom....vamos lá começar por aqui por este lado, disse o CT1EJ.
E lá fomos cada um para seu lado á procura do tal “volfrâmio” que todos procuravamos fazia tanto tempo.
Começaram então os alicates e também as chaves de parafusos a funcionar, depois as chaves inglesas e finalmente os serrotes.!!!
Só se ouviam os ruidos das ferramentas a serem aplicadas aos equipamentos ali existentes, e começaram a surgir então so resultados das pesquisas.
“É pá oh...Diogo...olha aqui...tantos Xtais novinhos em folha dentro, desta caixa de esferovite...até parece que nunca foram usados.!!!!”
Ao fundo, bem “encavalitado” em cima duma pilha de caixas de madeira, com inscrições de códigos militares, assim como o local do destino que teve o seu conteudo, estava este vosso amigo...triturando um amaranhado de fios com um alicate de corte, que cortava optimamente, manteiga numa tarde quente de Verão.
Do outro lado dos fios, estavam uns 20 e tantos mini-interruptores de tres posições (on-off-on), duma qualidade belissima e que deveriam ter desempenhado multiplas funções num painel de controlo de algum equipamento militar.
Espreitei um pouco mais abaixo e os meus olhos cairam mesmo em cima duma coisa meio esquisita, que naquela altura não estava bem a ver o que era.
Calmamente...desci um pouco do local onde me encontrava, colocando um pé mesmo em cima duma caixa muito limpa e reluzente que me despertou desde logo a atenção.
Que raio seria aquela coisa tão esquisita, meu DEUS !!!
O local era escuro e a falta de luz confundia-me, daí que só com muito custo consegui descobri finalmente o que era aquela coisa tão esquisita, que parecia a frente de uma catedral cheia de botões pretos e reluzentes de ambos os lados, varios comutadores que lhe dava um aspecto imponente.
Entretanto o resto do grupo , continuava na sua aventura silenciosa em busca de novos materiais, de chaves de parafusos numa mão, alicates de corte na outra.
Alguns elementos do nosso grupo, já tinham as algibeiras dos casacos, blusões e calças atulhadas de xtais, condensadores, interruptores, potenciometros e outros acessorios de utilidade.
As nossas mãos estavam cheias duma gordura viscosa, que colava em tudo em que mexiamos.
Um dos colegas estava radioso, pois tinha encontrado uma peça bastante valiosa, um transceptor AN-GRC-9 de CW e AM, chave de morse, bolsa protectora, auscultadores, bolsa com antena, alimentador e respectivos cabos de interligação.
O colega Diogo CT1EJ, já tinha arranjado uma colecção apreciavel de válvulas QQV03-20, QQV03-40, 6146, 6360, e uma grande colecção de Válvulas miniatura Nuvistores, que estavam muito em voga naquela altura, nos diversos equipamentos de comunicações.
Os meus olhos finalmente fixaram-se numa placa dourada, gravada a letras pretas que dizia: “ US Navy Receiver VHF-UHF Mod. BC-??? “.
Chamei então o colega CT1EJ para lhe comunicar o achado.
No seu tom habitualmente “pachorrento” o Diogo quando olhou para aquela peça de arte e comentou: “ é pá oh Gonçalves....isto é uma “máquina infernal”....é um receptor de V e UHF da Marinha Americana, que deve ter andado montado nalgum navio de guerra, mas que está num estado de conservação espectacular.
É pá...vai já falar com o homem do armazém e vê lá se ele te deixa levar isso tudo inteiro, porque vale a pena.!!!”
Lá fui....muito a medo, á procura do senhor do armazém, na espectativa de que ele me deixasse levar aquela “bizarma” para casa.
Foi com muito custo, que consegui convencer o senhor, que aquilo era mal empregado estar a desmanchar, pois iria danificar o receptor totalmente, impossibilitando-me assim de poder usufruir das possibilidades daquela “máquina infernal”, tal tinha sido classificada pelo CT1EJ.
Ele lá concordou... embora com muitas reservas, pois... não sabia como é que eu iria transportar aquela coisa até casa, uma vez que pesava uns 35 kilos.
Fizemos logo ali as contas, 35 Kilos vezes 5 escudos, era igual a cento e setenta e cinco escudos.
Lá se tinham ido as minhas economias do mês !!!!
Agora só esperava que aquilo estivesse a funcionar bem.
Quando eu próprio me apercebi do peso que aquela “coisa” tinha....fiquei para morrer.!!!
Senti logo um calafrio pela espinha acima... estava já a imaginar, como é que iria levar aquele “monstro” para casa dos meus Pais.???
O Colega Diogo CT1EJ pareceu que leu os meus pensamentos e prontamente se ofereceu para transportar a “máquina infernal” até aos Olivais em Lisboa, pois eu na altura não dispunha de transporte próprio.
Agora tinha de resolver outro problema grave....
Como é que eu iria convencer a minha Mãe, a poder instalar aquela “coisa” dentro do meu quarto.???
Faltava-me agora esta....mas tinha de resolver o problema e depressa.
Tive de inventar uma história muito bem arquitectada para levar de vencida a minha Mãe que era uma Mulher muito difícil de virar e convencer !!!!
A solução foi de dizer-lhe que me tinham oferecido aquele receptor, caso contrário tínhamos o caldo entornado.!!!!
Depois de escolhido o local exacto na minha pobre bancada onde iria ficar o receptor, havia de ligar o dito e verificar se a “coisa” funcionava.
Após uma verificação mais pormenorizada sobre o painel traseiro do receptor, constatei que o mesmo era alimentado a 110VAC e não aos 220VAC da nossa rede eléctrica publica.
Pronto….já está tudo “lixado” pensei logo, agora que a minha Mãe queria ver aquela “coisa” a funcionar pois achou a história que eu lhe tinha vendido, muito mal contada.!!!
Tive de recorrer então ao meu vizinho do prédio ao lado, o Rui Sá Nogueira CT1VC, para me ceder algum auto-transformador de 220VAC/110VAC que aguentasse a corrente de consumo daquela “bisarma”.
Por sorte o Rui estava em casa e depois de ouvir a minha história aflitiva, foi procurar nas suas velharias, algum transformador que servisse para as minhas necessidades e que me tirasse daquela angustia.
Passado alguns minutos, ouvi o Rui CT1VC dizer em vóz alta “…está cheio de sorte oh…Gonçalves….está mesmo aqui um transformador que é o indicado para o seu receptor….”.
Surgiu então de dentro de uma enorme caixa de madeira, um grande transformador que dizia Auto-Transformer AC 220/110V 50 to 60 Hz.
E pronto lá fui eu porta fora, com o transformador cedido pelo meu vizinho e grande Amigo CT1VC-Rui Sá Nogueira, que mais uma vez, me resolveu um problema, que inicialmente me parecia difícil de solucionar.
Após ligar o auto-transformador ao receptor…benzi-me 10 vezes…rezei 10 Padre Nossos …10 Avé Marias… fechei os olhos…liguei o botão do ON-OFF…e…Pum…!!…Aquela coisa acendeu e poucos segundos depois já fazia uma sopradeira do caraças….aquilo parecia que estava a funcionar.!!!!
Liguei-lhe uma antena de VHF de 5 elementos que estava montada no alto do telhado da prédio onde morava, rodei o botão de sintonia na range dos 130 aos 150 MHz…e….olá….que é isto.????
Não podia ser…o CT1ZB da Figueira da Foz, o Colega Vasco Aguas a chegar com 59+30 dBm no s-meter do receptor….
Fiquei para morrer de contente, até que enfim tinha uma recepção da banda dos 2 metros como devia de ser, pensei eu.
Claro que depois foi só explorar as diversas ranges que o receptor cobria, e até recebia a banda do FM Comercial (em mono) que era uma maravilha.!!!!
Fui logo á cozinha chamar a minha Mãe para lhe dar a noticia, até para ela ver que aquilo que eu lhe tinha dito era só um “bocadinho mentira”, o que ela achou muita graça, daquela “coisa” tão grande e pesada até dar musica com tão boa qualidade.
E foi assim, que mais uma vez, consegui levar de vencida a irritação da minha Mãe, que coitada… tanta paciência tinha para aturar as minhas “parvoíces” de um “puto” que estava a começar a sonhar.

Á minha Mãe e ao meu Pai, agradeço tudo o que me aturaram e tudo quanto me toleraram, para que eu conseguisse um dia… vir a ser aquilo… que já tinha traçado com objectivo na vida….UM RADIOAMADOR.


Elaborado por:
Francisco Gonçalves
CT1DL
2010