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domingo, 29 de novembro de 2009

RELEMBRANDO OS AMIGOS - CT1KQ

CT1KQ

Jorge Costa e Silva

Hoje vou-vos falar de um Colega, já falecido faz alguns anos e que marcou muito, a minha Vida de Radioamador, já lá vão uns bons 40 anos.
Certamente poucos ou mesmo nenhum dos Colegas mais recentes deveriam ter ouvido falar ou até mesmo escutado este indicativo, CT1KQ .!!!!
Era o Colega Jorge Costa e Silva, e morava Rua Sousa Viterbo, ali para os lados da Penha de França (Alto de S.João) em Lisboa.
Na altura, tinha eu os meus 17 anos, já o Colega Jorge CT1KQ teria uns bons 60’entas e tantos anos de idade.
Era uma figura carismática, bem disposto, bem falante, simpático, bonacheirão, gostava de brincar com as palavras, Amigo do Amigo e sempre pronto a ajudar algum Colega que como eu, estava a dar os primeiros passos no Radioamadorismo.
Profissionalmente o Colega Jorge CT1KQ era Técnico de Televisão, ainda no tempo da TV a preto e branco.
Trabalhava numa conceituada Empresa de Reparações de TV e HI-FI em Lisboa, sediada ali para a zona do Saldanha.
Todos os dias fazia o percurso a pé, desde sua casa na Penha de França, até ao local onde trabalhava, coisa de que se vangloriava frequentemente.
E era obra…para um Homem daquela idade.!!!
Naquele tempo, não estavam na moda os Ginásios, nem as pessoas tinham tempo ( $$$$$$$ ) para essas modernices.!!!
Trabalhava exclusivamente nas frequências altas VHF, mais própriamente nos 144 MHZ, ainda nos tempos do velho AM (Amplitude Modulada), com equipamentos totalmente por si construídos.
Ele era um Icon daquela época Gloriosa da Banda dos 2 metros.
Costumava dizer-se: “se não se escutasse o CT1KQ não se escutava mais ninguém…”
É que o Jorge CT1KQ, trabalhava já naquele tempo, com 2 válvulas QQE06/40 que debitavam cerca de 120 Watts de RF para a antena, com a particularidade de estar numa situação geográfica bastante favorável.
Um dia, após um longo QSO nos 144.180 MHz (era a minha frequência de emissão na banda dos 2 metros ) com o Colega CT1KQ, fui convidado por ele para fazer uma visita ao seu QTH em Lisboa, convite que aceitei com imenso agrado uma vez que era “novato” e apenas conhecia dois “Shack’s” de Radioamadores que eram meus Amigos e vizinhos (na altura eu morava nos Olivais Sul ali perto do agora Olivais Shopping ), o CT1XI-Mariano Gonçalves, que morava perto de mim e o CT1ZX-Rui Penaguião / Carlos Ladeiras 2º.Operador de CT1ZX, agora CT1QP, que moravam em Moscavide.
E num belo sábado de Verão, meti pés ao caminho, apanhei o Autocarro da Carris Nº. 19 dos Olivais para a Praça do Chile e lá fui eu a caminho de uma Grande Aventura, que nunca mais esquecerei.
Com muito custo lá dei com a morada do CT1KQ, pois andei um pouco perdido pelas imediações, visto não ter tido o cuidado de perguntar a alguém onde se situava a dita Rua, mas finalmente lá dei com a morada certa.
Subi ao 2º. Andar do antigo e imponente edifício, característico das construções daquela época, pois havia então muito espaço para construção e não se olhavam a custos por metro quadrado.
Com um certo receio…respirei fundo…engoli em seco…e toquei á campainha.!!!
Ouvi lá ao longe passos…uma vóz feminina balbuciou: “…só um momento, por favor…”.
A porta abriu-se…e uma Senhora de cabelos brancos com uma cara muito simpática e sorridente disse-me: “ …é o Sr. Gonçalves o CT1DL não é..??? …pode entrar…o meu Marido está lá dentro á sua espera, ele está a falar com outro Colega Radioamador, creio que é o Sr. Antunes CT1CO “.
Lá fui entrando, guiado pela bondosa e simpática senhora, que ficou muito admirada por eu ser muito jovem, fazendo-lhe lembrar um filho dela, que tinha partido para o Brasil fazia alguns anos e que era muito parecido comigo, afirmou com uma “lagriminha” no canto do olho, enquanto me afagava os cabelos e me acariciava o rosto.
Mais tarde, vim a saber da história, que o CT1KQ me contou.
Cheguei então a uma marquise enorme, toda envidraçada, ampla, bem arejada e ensolarada.
E lá estava ele…ao fundo, de pijama de flanela ao xadrês e de chinelos de quarto, junto a uma coisa enorme, que mais parecia um armário, e falar para um microfone que eu não via.!!!
Que coisa mais esquisita pensei eu.!!!
O Colega Jorge, passou então a palavra ao Colega CT1CO com quem estava a falar, despedindo-se dando-lhe conta da minha presença na sua casa, dizendo que iria ficar em QRT por algum tempo.
Ali fiquei eu….em frente aquela figura simpática e bem disposta que dava pelo Nome de Jorge e era conhecido por CT1KQ.
Feitas as apresentações, começamos a falar daquilo que me tinha levado ali, o Radioamadorismo.
E então, começaram as explicações pormenorizadas de todo aquele amontoado de equipamentos que estavam á minha frente.
“Olhe…Gonçalves, isto aqui é um Rack que eu construí para suportar todos os andares do meu emissor e receptor de VHF”.
Aqui em cima, fica o amplificador de RF com duas QQE06/40, por baixo está o emissor e excitador que tem uma QQE03/20 na saída, mais abaixo está o modulador de áudio, aqui por baixo o receptor que é um receptor de onda curta de tripla conversão, adicionado a um conversor de 144MHz/10 MHz (…não confundir com 10 metros…) e finalmente por baixo a fonte de alimentação para todos os módulos.
O microfone está aqui escondido, porque ele é muito bisbilhoteiro e capta todos os ruídos que estão á sua volta, por isso fica ali atrás de castigo.
Estava finalmente, desvendado o mistério do CT1KQ ter estado a falar, sem eu ter visto o microfone.
Todas estas explicações, foram acompanhadas da retirada integral de todos os módulos que compunham todo o Rack, assim como de uma breve explicação do seu funcionamento.
A minha alma estava parva.!!!
Curioso, era o facto de o Rack estar protegido em toda a sua altura e largura lateralmente e atrás, por rede de “galinheiro” de malha larga, que segundo o Colega Jorge, servia de blindagem á RF.
Noutro local da marquise, estava uma bancada com um torno, algumas peças de ferramenta, como serrotes de ferro, limas, berbequim manual, brocas, punções, etc…etc.
É que o Colega Jorge CT1KQ, espantem-se as nossas almas, fazia os transformadores de alimentação e de modulação, á mão.!!!
Eu disse… á mão.!!!
Vou explicar um pouco melhor.!!!
Ele comprava a chapa de ferro adequada ás circunstâncias, calculava as dimensões das chapas “E” e “I” e cortava uma a uma as chapas correspondentes, bem como as furacões para a fixação do transformador.
Depois seguia-se o enrolamento e o seu isolamento exterior com verniz por causa das humidades e vibrações.
Eu vi…eu vi alguns desses transformadores ainda a funcionar, bem como outra habilidade que CT1KQ fazia, que era a construção de condensadores variáveis de baixa capacidade ( na ordem dos 2 @ 10 pf ) que era muito difícil de encontrar no mercado Nacional de então.
Aproveitava a carcaça de um condensador variável de um musiqueiro a válvulas e cortava com uma tesoura de chapa, as meias luas fixas e móveis que iriam constituir o condensador desejado.
Era um regalo para a vista e para a imaginação do Amador daqueles tempos.
Naquele tempo, haviam verdadeiros artista manuais na construção de componentes dos quais não era fácil encontrar no mercado, obrigando-os assim a pôr a imaginação e a creactividade a toda a prova.
Ao fundo uma zona dedicada á arrumação de peças de rádio, componentes, válvulas, condensadores, resistências, aparelhos de medida, cabos, etc.
Como estava uma tarde convidativa de Sol, fomos até ao quintal, que ficava em frente á marquise.
Curioso o facto de um 2º. Andar ter quintal, não é.???
Mas era verdade mesmo… o 2º.andar ficava construído num terreno, onde na sua direcção ficava um quintal cimentado e com uma passerele que dava para uma outra zona mais ampla, onde o Colega Jorge CT1KQ tinha aproveitado para montar e experimentar as suas antenas.
Comecei a olhar e vi pela primeira vez, uma coisa meio esquisita que mais parecia duas estruturas de um papagaio de lançar ao vento, mas um em frente ao outro, suportado por um tubo de plástico grosso.!!!
- “ Cum escafandro….pensei eu “.
Oh…Colega Jorge, para que serve aquela coisa tão esquisita que tem ali.???
O CT1KQ…começou a rir á força toda pela minha admiração…
-”É a minha antena cubica de quadro para ver a TVE do canal 4 de Guadalcanal em Espanha.!!!”
Estávamos então no ano de 1970, não havia TV Cabo, Net Cabo, Cabovisão… era tudo em directo e a Preto e Branco.
Ao lado…um mastro com uns bons 6 metros de altura e lá no alto reparei noutra coisa que me despertou a atenção que era uma caixa toda em ferro, pintada de preto donde saiam alguns cabos que iam ligar a uma antena de 7 elementos tipo Yagi, feita com varões de alumínio e montada num tubo de plástico branco muito grosso.
Tive de satisfazer de novo a minha curiosidade e lancei a “bisca” ao Colega CT1KQ: - Oh Colega Jorge, que antena é aquela ali em cima e aquela caixa preta para que serve.???
Nova risada de satisfação….pelas questões que eu lhe ia colocando, naturais de um “puto” que estava a dar os primeiros passos no Radioamadorismo.!!!
-“Olhe oh Gonçalves, aquela caixa preta, é um rotor de construção caseira, que serve para rodar aquela antena de VHF que ali está e que utilizo para falar para o Norte de Portugal e Espanha”.
Lembrem-se que naquela época não havia Repetidores, nem FM, nem sequer equipamentos de Fábrica, era tudo feito á mão com os “cangalhos Box” parafraseando o nosso Querido CT1DT-Mário Portugal.
Todos os dias ao final da tarde e á noite após o jantar, lá estava o CT1KQ a chamar pelos seus correspondentes habituais daquela altura na banda dos 2 metros.
Eram eles entre outros, CT1PI - Ovar, CT1LG – Ovar, CT1AXY – Porto, CT1ZB – Figueira da Foz, CT1AS – Figueira da Foz, CT1BT – Évora, EA4AU - Badajoz, EA4CY – Madrid, entre outros que não me recordo, já lá vão tantos anos.!!!!
De notar que estes QSO eram feitos em AM (Amplitude Modulada ) e em directo, pois como atrás referi não se falava sequer em repetidores, nem em FM (Frequência Modulada) antenas verticais, etc…etc.
Na altura os emissores utilizavam XTAIS de 8 MHz, que depois eram triplicados por um andar amplificador para 24 MHz, depois triplicados para 72 MHz e finalmente dobrados para 144 MHz. Recordo-me ainda, que o meu XTAL era de 8.010 MHz que dava a frequência final de 144.180 MHz.
Era muito giro.!!!!
Então, passados alguns tempos, haviam já muitos Radioamadores que começaram a utilizar equipamentos de fábrica com VFO’s comuns a Emissão e Recepção que foi o meu caso.
Adquiri ao Colega CT1AN-Nascimento (falecido faz poucos meses), um TRIO TR2E, só com AM, que utilizava uma válvula QQE03/12 no andar final, sendo todo o resto do equipamento transistorizado.
Este equipamento tinha uma particularidade muito engraçada que era o facto de ter dois VFO separados, um para RX outro para TX.
Este equipamento foi mais tarde modificado por mim, com a ajuda do CT1BM-Cordeiro, para trabalhar também no modo de FM, o que veio a permitir-me em 1973 fazer aquilo que eu ainda hoje considero um feito histórico da minha Vida de Radioamador na Banda dos 2 metros.
Contacto directo em FM com a estação Italiana I0VKS da Cidade de Roma, com sinais de 59+30 dB e durante 5 minutos (não se ouvia então falar das Esporádicas E) e do qual guardo religiosamente o QSL.
Haviam muito poucas estações a trabalhar em Portugal na banda dos 2 metros, estando a maioria delas centralizadas em Lisboa e arredores, Porto e as outras bem distantes umas das outras, só sendo possível o contacto entre elas devido á Propagação que na altura estava no seu pico positivo.
Na zona de Lisboa lembro-me entre outras:
CT1KQ-Lisboa, CT1CO-Lisboa, , CT1FM-Lisboa, CT1IH-Lisboa, CT1ST-Lisboa, CT1NB-Lisboa, CT1UF-Lisboa, CT1OW-Lisboa, CT1PQ-Lisboa, CT1AP-Alcanhões, CT1DY-Glória Ribatejo, CT1DT-Benavente, CT1XI-Lisboa, CT1OB-Pirescouxe-Santa Iria CT1ZX/2º.Operador CT1QP-Moscavide, CT1ED-Moscavide, CT1AN-Paço D’Arcos, CT1RV-Lisboa, CT1KN-Lisboa, CT1HQ-Lisboa, , CT1IJ-Queluz, CT1ZK-Amadora, CT1WO-Lisboa, CT1RU-Lisboa, CT1VC-Lisboa, CT1MQ-Lisboa, CT1VS-Moscavide, etc…etc…etc.
Estações móveis existiam muito poucas, devido ao facto dos equipamentos serem bastante grandes e pouco adaptáveis aos carros de então, além de que consumiam bastante corrente á bateria das viaturas devido ao facto do consumo em AM ser bastante mais elevado do que em FM, CW, SSB.
Vou-vos só dar nota, de algumas das estações móveis, que operavam aqui na zona de Lisboa e arredores que eu de momento me recordo:
CT1OB/A-Hilmar, CT1ZU/A-Melo, CT1ED/A-Vitor Carvalho, CT1FM/A-Sérgio Marques, CT1PQ/A-Caro Veiga, CT1KN/A-João Ramos, CT1AN/A-Nascimento, CT1ZB/A-Vasco Aguas, CT1BU/A-Mata Fome, CT1OW/A-Corte Real, CT1IJ/A-Frederico Pires, CT1DY/A-Grilo, CT1AP/A-Prof.Martinho, CT1BQ/A-Galinha, CT1BT/A-Romualdo Teles, etc…etc…etc.
Mas…voltemos ao Colega Jorge CT1KQ.
Fiquei ainda mais curioso de ver aquilo tudo a funcionar, o que levou o Colega Jorge com uma paciência de Santo, passados alguns minutos a colocar aquela “tralha” toda a girar para eu ver como tudo estava operativo.
Fiquei aterrado….parvo…parecia um anormal, a olhar para aquilo tudo a mover-se lentamente de um lado para o outro.
Mais parvo fiquei, quando passado algum tempo o colega Jorge me mostrou o que estava dentro da caixa preta que fazia de rotor.
Era um motor de uma máquina de barbear da Philishave, com umas brutas rodas dentadas feitas em bronze, que tinham sido feitas á mão pelo CT1KQ e que serviam de desmultiplicação á força do pequeno motorzinho da máquina de barbear.
- “Aquilo…era areia de mais para a minha camioneta…”
Em seguida, falamos da antena de 7 elementos também construida pelo CT1KQ, que mais não era do que cópia de uma antena de marca Americana (Hy-Gain) que se Comercializavam em Portugal num Representante do Porto (creio que Pinto Leite, Ldª.-Representante da Heathkit), mas que custavam os olhos da cara.
O CT1KQ, falou-me em pormenor da sua construção, dos problemas que teve para colocar a antena a funcionar com a linha de 300 Ohms ( …lembrem-se que estávamos em 1970, a informação para os radioamadores era quase nula, em Português quase nada existia, apenas alguns esquemas que eram feitos á mão por alguns Amadores que iam copiando de Revistas Americanas, como QST, etc….nem sequer haviam Fotocopiadoras para se tirarem cópias dos esquemas ou scanners para retirar umas fotos dos pormenores de construção…eram tempos muito difíceis, a Internet não existia…), das dificuldades para aquisição do alumínio, da construção do Delta-Match, etc…etc…
Fomos então de novo para o “shack” do CT1KQ.
Reparei que o Colega Jorge CT1KQ utilizava como linha de transmissão fita de 300 Ohms phenólica, o que me fez alguma confusão, uma vez que eu nunca tinha visto aquilo a ser usado em emissão, só nas antenas de Televisão da altura.
Depois duma explicação sumária feita pelo CT1KQ acerca da utilização dessa fita de 300 Ohms entendi o porquê.
Prendia-se ao facto, da antena que estava a utilizar ser de uma dada impedância (alta) e a impedância aproximada da fita ser do mesmo valor aproximado de 300 Ohms .
Foi então que os meus “olhinhos de Lince” depararam com outra coisa esquisita.!!!
Um pedaço de fita de 300 ohms com uma lâmpada de quadrante dos rádio musiqueiros (6,3V) em cada ponta e colocado por cima da fita de 300 ohms que ia para o emissor, mas…seguro com uma mola da roupa.
-“Não havia duvida, era demais…o meu coração não aguentava tanta “espantação”…eram só coisas esquisitas, coisas que eu nem sequer fazia ideia para que serviam.
Mais uma vez não resisti…tive de pedir ao CT1KQ que me explicasse para que era aquele “aranhiço” ali pendurado.???
Nova gargalhada…juntamente com um afagar terno nas costas.
- “Olhe Gonçalves, isto é um medidor de estaccionárias.!!!!”
Tive naquela altura vontade de fugir dali.!!!
E lá me foi explicando pacientemente, como aquele “aranhiço” funcionava na prática.
Digo-vos muito sinceramente que na altura não percebi nada…rigorosamente nada, daquilo que o Colega Jorge CT1KQ me estava a explicar, até porque os meus conhecimentos de electrónica nessa altura eram quase nulos, para não dizer nenhuns.
Mais tarde, vim a entender finalmente como aquela “coisa” funcionava.!!!
A explicação é muito simples: - o pedaço de fita phenólica tinha um comprimento de ¼ de onda, ou seja aproximadamente 49 cm, num extremo da fita paralela, soldava-se uma lâmpada de 6,3 Volts-100 mA entre cada fio do paralelo da fita, na outra ponta fazia-se exactamente uma mesma ligação com a outra lâmpada igual.
Agora para pôr aquilo a funcionar era assim: - colocava-se o emissor no ar (emissão), depois ia-se deslizando o tal “aranhiço” ao longo do comprimento da fita de 300 ohms, até uma das lâmpadas acender fortemente, até ao máximo de brilho.
Quando uma das lâmpadas estivesse acesa no máximo de brilho, a outra lâmpada do lado oposto do “aranhiço” teoricamente estaria quase apagada ou mesmo apagada, sinal de que não havia corrente de retorno pela linha abaixo, ou melhor dizendo não tinha estaccionárias, entendido.????
Depois era só segurar ali o “aranhiço” com uma ou duas molas da roupa e pronto, o nosso medidor de SWR estava funcionalmente a trabalhar a 100 %.
Tão simples, não era.???
Depois seguiu-se um QSO nos 144 MHz, á boa maneira do Colega Jorge CT1KQ fazendo uma chamada geral que era mais ou menos assim:
- “…alô chamada geral… chamada geral ….chamada geral…Cê Tê 1 Kapa Quê chama em geral banda de 2 metros (repetia esta chamada três vezes) … Cê Tê 1 Kapa Quê, chamou geral na banda de 2 metros e vai escutar a banda…..terminado.!!!”
O CT1KQ começou então a rodar o quadrante do receptor e logo ouviu um sinal muito forte, mas uma vóz muito fraca e trémula dizendo: - “alô…Cê Tê 1 Kapa Quê… Cê Tê 1 Kapa Quê…daqui Cê Tê 1 Canadá Ontário, que responde á sua chamada geral, Cê Tê 1 Canadá Ontário responde á sua chamada geral, dá-lhe as boas tardes e vai escutar a banda, câmbio…câmbio.”
E pronto, iniciou-se ali mais um dos habituais QSO’s na banda dos 2 metros, entre dois Amadores, nas tardes de sábados e Domingos.
As horas passavam-se e quando dei por mim, eram quase 19.30 horas, tinha de me apressar pois tinha de estar em casa antes das 20 horas para o jantar de Família, que na minha casa era sagrado.
Fiz as despedidas, agradeci a tarde memorável que o Colega Jorge CT1KQ e Esposa me proporcionaram ( a dada altura da tarde, a ternurosa Esposa do CT1KQ, brindou-nos na marquise do shack do CT1KQ, com uma travessa cheia de bolinhos de manteiga feitos por ela, tortas, bolo de chocolate e um cházinho primoroso que nunca esquecerei…) e tive de partir, com a promessa de voltar outro dia, tal foi a insistência de ambos.

O Colega Jorge CT1KQ passados uns anos reformou-se, dedicou-se a tempo inteiro ao Hobby do Radioamadorismo, ás experiências, aos ensaios de antenas, á renovação dos equipamentos, visto começarem a aparecer no mercado alguns equipamentos de 2 metros com uma coisa espectacular que era o VFO para emissão e recepção, (Oscilador de Frequência Variável) que permitia não ter de recorrer aos famosos Xtais de Quartzo tão difíceis de adquir.
O CT1KQ tentou então, construir alguns VFO’s, recorrendo á tecnologia dos Mos-Fets e Fets, matéria esta que o CT1KQ não dominava muito bem, visto estar mais habituado ás válvulas. Deu-se inicio a uma fase muito complicada para ele, visto nunca ter conseguido construído um VFO estável, que permitisse escutar e ser escutado na mesma frequência.
Tentou….tentou…e nada.!!!
Os tempos tinham mudado… começaram a aparecer jovens com outros conhecimentos de electrónica, com garra, com outras ideias, com mais informação, com outras capacidades de creatividade, que revolucionaram a banda dos 2 metros em Portugal.
Surgiram os primeiros Grupos de Radioamadores, o Novice Gang VHF (CT1ZX,CT1QP,CT1ZK,CT1WO,etc.) o Gang da Borda D’Agua (CT1OB,CT1ZU, CT1ED, CT0320,CT1BM,CT1DL, etc.) e outros iam surgindo pelo Pais.
O Colega Jorge CT1KQ, rendeu-se á evidência.!!!
Faltava-lhe a paciência, a disposição, a vista, a serenidade manual, a Saúde.
Fazia grandes ausências, uma seguidas ás outras, até que…deixou de se escutar….tomei conhecimento da sua Morte bastante tempo depois.
Hoje certamente… no Além …CT1KQ deve de continuar a manter os seus QSO’s em frequências Astrais com outros Amadores do seu tempo, que já partiram também, mas certamente utilizando ainda o modo de Amplitude Modulada.
Alô …Alô…CT1KQ….um dia vamo-nos juntar por aí, depois faremos muitos QSO´s, mesmo que a Dona Propagação não nos deixe, portanto…Colega Jorge continue a escutar a Banda.!!!

Para terminar quero aqui deixar o relato feito mais tarde pelo CT1KQ acerca de seu Filho.
Vamos agora á breve história.
Ele tinha partido para o Brasil, para fugir á tropa, para não ter de ir para as antigas Províncias Portuguesas em África combater.
Fugiu de barco, um Katamaran construído por ele, fazendo-se ao Mar sem qualquer autorização Oficial, sem meios de navegação e de segurança, clandestinamente, enfim….uma verdadeira loucura.!!!
Desde essa data, e durante dois anos o CT1KQ e Esposa nunca receberam qualquer noticia dele.
Pairava na mentes destes Pais, a ideia que teria sido vitima de algum acidente e se tivesse afundado juntamente com o Barco, que tivesse adoecido e morrido, que tivesse sido capturado pelas autoridades Marítimas de algum País, etc…etc…etc.
Mas…a Vida tem gratas surpresas.!!!
Dois Anos depois…o telefone tocou.!!!
Do outro lado da linha, ouviu-se uma voz Familiar: “alô…Mãe… sou eu, estou no Norte do Brasil, com Vida e Saúde.!!!” daqui a dias… vou escrever-vos e contar-vos a história toda da minha Viagem…está tudo bem…dê beijinhos ao Pai.!!!
E desligou…aquilo foi uma Vida Nova que caiu dentro daquela casa.!!!
Meses mais tarde, (…ainda não havia naquele tempo o Correio Azul…, nem E-Mails ou MSN) eis que chega a prometida carta, com toda a história da Viagem, da sua estadia por Terras do Brasil e das suas intenções de Vida naquele Pais.
Tinha escolhido para residir uma Cidade do Nordeste do Brasil, junto á Amazónia, tendo entretanto conhecido e casado com uma Indígena duma tribo Índia, tinham naquela altura já 3 ou 4 filhos e esperavam outro brevemente.
Naquele tempo, os Índios não ouviam rádio nem viam televisão, e tinham muito tempo livre para estas coisas.!!!
O filho do CT1KQ, dedicou-se á construção de Barcos de Recreio, tinha um estaleiro seu onde em conjunto e sob a sua Direcção construía todo o tipo de Iates e Barcos de Recreio, chegando a construir algumas embarcações para Países como Inglaterra, Espanha, França, Holanda e Portugal.
Era conhecido Internacionalmente pelo seu rigor de construção e qualidade das madeiras utilizadas.
Vivia bem…Feliz…mas gostava que os Pais o fossem visitar ao Brasil, coisa que nunca veio a acontecer, por motivos de Saúde por parte do próprio CT1KQ, bem como de sua Esposa.



Elaborado por:
CT1DL-Francisco Gonçalves
2008

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