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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O TI'MANÉL DO CINEMA


O Ti’ Manél do Cinema e “as Galenas”

Hoje venho relatar-vos uma pequena história e prestar a minha Homenagem, a uma pessoa que já algumas vezes tenho referido nos meus artigos (…sempre sumáriamente…) sobre a minha vida de Radioamador,
“O Ti’Manél do Cinema…” .

Estávamos nos Anos 60’s, tinha 15 anos de idade, morava em Alverca do Ribatejo, trabalhava no Escritório duma Fábrica de Móveis Metálicos (..para ajudar os meus Pais nas despesas da casa..), estudava á noite na Escola Industrial de Vila Franca de Xira, tendo os Sábados á tarde e os Domingos para as minhas diversões.
Lá ia “cravando” a minha Mãe aos Domingos, com 25 tostões (2$50…actualmente 1 cêntimo…o que era já uma quantia elevada para aquela época ), para ir ao Cinema lá do sítio ver uns filmes de Cowboys, com o Gary Cooper, John Wayne, ou Tarzan, Marisol, Gianni Morandi, etc…etc.
Só que…o Cinema local estava em obras de remodulação, tendo sido substituído por um Cinema ambulante ( tipo Circo ) onde eram passados os Filmes num grande écran colocado ao fundo do recinto.
O Cinema/Circo, estava montado num terreno, mesmo em frente á minha casa.
No Verão, aquilo até era engraçado, contudo no Inverno ou em dias de muita chuva, era frequente os espectadores terem os seus chapéus de chuva abertos, para evitarem chegarem a casa encharcados.
Eram épocas diferentes como devem de calcular, mas que me deixaram gratas recordações como esta que hoje vos quero relatar.
O Ti’Manél era o porteiro do Cinema e arrumador do mesmo.
Recebia os bilhetes, guiava os clientes até aos seus lugares e de vez em quando, lá lhe davam 5 tostões de “gorjeta” que ia juntando carinhosamente.
Era um Homem alto, magro, com muito boa aparência e simpático, ou não fosse ele um homem do Norte.
Uma tarde de Domingo, estava eu na fila para entrar para o cinema, quando ouvi o Ti’Manél dizer a um indivíduo que estava perto dele: - “…Oh…pá…vamos a despachar que eu quero arrumar a malta toda nos lugares, que quando o cinema começar, quero ir lá para dentro ouvir na minha Galena, o relato do Porto / Sporting que começa ás quatro horas…”.
Fiquei logo de orelhas no ar quando ouvi falar em “Galena”, pois tinha á pouco tempo ouvido umas conversas lá em casa, onde falavam numas “galenas”, que eram usadas em casa para ouvir música, sem pagar a taxa á Emissora Nacional.
Fui assistir ao filme e mal ele acabou, fui direitinho ao local onde se encontrava o Sr. Manuel e disse-lhe: -“Oh…Sr.Manuel, desculpe lá…posso falar consigo um bocadinho.???”
Espera aí um pouco….deixa-me só acabar de arrumar isto que já falamos.!!!
Pouco tempo depois, estava frente a frente com o Sr. Manuel e fui logo direito ao assunto.
“Sr. Manuel…desculpe lá o maçada…mas por acaso ouvi o Sr. á pouco falar que ia ouvir qualquer coisa na sua galena….é verdade.???? O Sr. tem mesmo uma galena.???”
Tenho sim…respondeu o bom Homem, rindo da minha cara de espanto e alegria ao mesmo tempo.
Porquê.??? Queres ouvir aquilo a tocar.???
A minha resposta foi imediata….”queria sim…”.
Então deixa-me lá acabar isto que estou a fazer, que já vamos ouvir aquela coisa a tocar…
Passados alguns minutos, o Ti’Manél já tinha terminado os afazeres que tinha entre mãos e disse-me:
-“vamos lá então….ver a coisa a funcionar.!!! “
Fomos até á Caravana dele, que estava instalada mesmo ao lado do Cinema/Circo.
O Ti’Manél era um Homem de 60’s e tais anos de idade, viúvo, vivia numa Caravana, pois como andavam sempre de terra em terra, não podia ter residência fixa…segundo ele dizia.
Ele dirigiu-se em silêncio até uma prateleira, que estava colocada por cima da cabeceira da cama, onde descansava algumas horas, depois de um dia extenuante de trabalho.
Puxou duma caixa de sapatos com a respectiva tampa, e colocou-a em cima duma mesa, onde ainda estavam alguns vestígios de uma refeição.
Então pensei logo…..”pronto…já estou lixado…este agora vai-me mostrar os sapatos que comprou na Feira de Alverca e nunca mais me mostra a coisa a funcionar…”
Mas, não….depois de colocar a caixa sobre a mesa, começou á procura de qualquer coisa que deveria de estar escondida atrás da cama….”que coisa complicada….isto de ter uma galena é assim tão difícil de pôr a funcionar.??? “
Até que…finalmente lá estava aquilo que o Ti’Manél procurava….nem mais nem menos, que dois fios enrolados cuidadosamente e atados com um cordel fino, formando um rolo.
Meu rapaz….isto são os fios de antena e de terra, percebes.???
Claro que eu percebia completamente ( hi…hi…hi.hi…), como devem calcular….fios de terra e fio de antenas… comigo…era tu cá…tu lá…
Fiquei calado, apenas acenando com a cabeça afirmativamente, tentando não dar parte de fraco, até porque me estava a fazer confusão o facto, do tipo querer ir ligar os fios á caixa dos sapatos…
Os fios lá foram puxados para cima da mesa, tendo finalmente o Ti’Manél tirado a tampa da caixa, deixando ver no interior, não um par de sapatos, mas sim uma tábua de madeira com uns “jingarelhos” lá pendurados, fios, um tubo de cartão com uns fiozinhos todos enrroladinhos ao lado uns dos outros, tudo muito bem arrumado, sendo as peças unidas, com uns pregos de sapateiro, em cima da tal tábua de madeira.
Mas…despertou-me logo á atenção… um elemento daquele monte de “fiarada” que estava dentro da caixa.
Eram duas coisas meio esquisitas, que estavam ligadas uma á outra através de uma cinta de aço, que mais pareciam duas caixas de pomada para os sapatos.
Daí ter disparado logo com a primeira pergunta ao Ti’Manél: -“Sr. Manuel, o que é que são aquelas coisas redondinhas que estão ali.????”
O Ti’Manél riu-se… da minha ignorância e da minha inocência, respondendo: - são uns auscultadores, que servem para nós ouvirmos, a musica da galena, estás a entender.?
Bom….mas vamos lá ligar isto tudo como deve de ser… para ouvires aqui a engenhoca a trabalhar.!!!
Fio daqui… fio dali …e colocou finalmente, aquela coisa que ele chamava os auscultadores nos seus ouvidos, começando a mexer para trás e para a frente lá num botão meio esquisito, que estava pregado á tábua…pouco tempo depois, começou a bater o pé ligeiramente no chão…começando a cantar baixinho….
“…não venhas tarde…dizes-me tu com carinho….Olha…já estou a ouvir o Carlos Ramos a cantar um fado…” .
Ouve lá tu….toma lá os auscultadores.
Mal coloquei os auscultadores nos ouvidos, fiquei meio “abananado” com aquilo que estava a escutar…era mesmo musica…aquela “fiarada” toda, a caixa dos sapatos, a tábua lá dentro com aqueles “jingarelhos” todos agarrados com pregos, dava mesmo música ….cún canéco.!!!
Aquilo era mesmo giro.!!!!
Mas o meu espanto ainda foi maior, quando a música acabou e ouvi a vóz de uma Mulher que me era familiar, sempre que andava nas minhas “sarranfoniçes” na telefonia lá de casa.
Era uma Senhora com uma vóz muito doce e calma, que se chamava Maria Leonor, e informava que estávamos a escutar a Emissora Nacional, eram 20 horas e iriam dar início ás noticias do País.
Fiquei logo… arrásca… 20 horas….o meu Pai… vai-me dar cabo do “canastro” pensei logo.
Já devia de estar em casa, para o Jantar com a Família….despedi-me do Ti’Manél , com a promessa de voltar em breve, para ele me explicar como é que aquilo funcionava.
O Ti’Manél….ria-se… que nem um desalmado… vendo-me tão atrapalhado, e retorquiu:
“…é pá….volta quando quiseres rapaz…eu depois com mais calma… explico-te como é que podes fazer uma coisa destas, para teres lá em tua casa…”
Quando ouvi aquilo…já não sabia o que fazer….se ficar…se seguir para casa para não levar um raspanete do meu Pai.
Pensei duas ou três vezes e optei pela última sugestão…fui direitinho a casa, até porque era só atravessar a rua para o outro lado.
Por sorte, a minha Mãe ainda estava a acabar de por a mesa, de modo que passei despercebido ao meu Pai, não tendo ele sequer reparado nas horas.
O jantar decorreu como habitualmente, enquanto se comia calmamente, o meu Pai falava com a minha Mãe, sobre coisas diversas, enquanto eu escutava atentamente tudo quanto se dizia sem proferir uma palavra.
Eles conversavam….mas eu não estava a escutar nada daquilo que ali se estava a passar em meu redor….
A minha mente já estava noutra onda….”galenas….fios de terra … fios de antena…auscultadores….já me estava a ver com os auscultadores nos ouvidos, sentado no meu quarto, ouvindo musica da minha própria galena… feita por mim…”
Só conseguia era ouvir isto: “eu depois com mais calma… explico-te como é que podes fazer uma coisa destas para teres lá em tua casa…”
Depois da refeição, vim até a varanda da minha casa (2º.andar) para poder sonhar um pouco mais de olhos abertos, sobre tudo aquilo que me tinha acontecido naquela tarde.
Andei toda a semana a pensar no assunto da galena, esperando pacientemente que chegasse sábado, para poder voltar a encontrar-me com o Ti’Manél do Cinema, com o objectivo de podermos esclarecer algumas coisas que tinham ficado por esclarecer, nomeadamente como é que aquilo funcionava, como é que eu podia construir uma galena, o que é que precisava de arranjar, etc…etc…etc.
Depois de muita ansiedade, eis que chegou sábado finalmente.
Ainda tive de trabalhar das 9 horas até ás 12:30, pois naquela época (1965/66) na maioria das Empresas só davam a semana Inglesa.
Logo que saí do Escritório, fui a correr para casa, almocei e de imediato desloquei-me até ao outro lado da rua, na esperança de encontrar o Ti’Manél, que deveria estar nas proximidades do Cinema/Circo.
Olhei em redor…e nada.!!
Bom…ele deve de estar lá dentro do Cinema, nos preparativos para o Filme de logo á noite.
Bati á porta e gritei…. “Sr.Manél….está por aí.????”
Não obtive qualquer resposta, o que me deixou desolado.
Voltei a insistir….e nada de resposta.
Bom…hoje não é o meu dia certamente, pensei.
Quando já estava para desistir e regressar a casa, ouço uma vóz com sotáque do Norte a cantarolar ….
-“…um molhinho bem feitinho…faz indreitar o páuzinho…óh…lari…lari…loléééé…”
Era o Ti’Manél que estava na caravana a preparar o almoço, cantarolando, enquanto mexia com uma colher de pau, o conteúdo dum tacho de barro que estava sobre o fogão.
E aquilo, cheirava bem…hum…que cheirinho… disse-lhe eu.!!!
Olá rapaz….queres comer alguma coisa.???
Estou a acabar de fazer aqui uma carninha guisada com massa, que deve de estar uma delícia.!!!
Agradeci, dizendo-lhe que já tinha almoçado, mas que lhe fazia companhia, pois assim podíamos continuar conversando sobre o assunto da galena.
Após o almoço, o Ti’Manél lavou e arrumou os utensílios de cozinha, tendo então finalmente ficado á minha disposição, para as questões que eu lhe tinha para colocar, que eram bastantes como devem de calcular.
Em primeiro lugar, foi buscar de novo a caixa de sapatos com a galena, desenrolou os fios de terra e antena e colocou tudo em condições de começar-mos e escutar aquela “coisa” a tocar.
A minha primeira pergunta foi logo disparada, não lhe dando tempo sequer de acabar de montar tudo como devia de ser: -“Oh…Sr. Manuel... para que serve o fio de terra e o fio de antena que ligamos á galena"…??
Então o Ti’Manél foi buscar um papel onde tinha desenhados uns “arabescos e uns gatafunhos” meio esquisitos, onde me foi explicando, a trajectória que os sinais de rádio (que eram captados pelo tal fio de antena), levavam até chegarem aos auscultadores.
De seguida explicou-me, como é que podia construir uma “coisa daquelas” para ter lá em minha casa.
Aquilo foi… uma desgraça…começa-me logo a falar de bobines, fio de cobre esmaltado, tubo de plástico ou cartão, condensadores, diodo de germânio, alvéolos, uma tábua de madeira, pregos e auscultadores.
Aquilo para os meus ouvidos, era completamente “Chinamarquês”.
Mas…com a paciência que lhe era natural, lá me foi dizendo como é que tudo se podia arranjar, dando-me indicação que teria muito gosto em procurar nas suas “sucatas” de material que dispunha, os componentes que seriam necessários juntar.
Aquilo para mim foi uma óptima ideia, pois não me estava a ver com iniciativa de conseguir juntar tudo aquilo que necessitava ( $$$$), para construir a minha galena.
Depois de “rabuscar” tudo o que era caixotes, caixas, frascos de vidro, papelinhos enrolados dentro de sacos de plástico, saiu a conclusão final: - “pronto rapazão…só tens de arranjar uns auscultadores que o resto temos aqui tudo…”
Como devem de calcular, fiquei que nem um “peru inchado”
Tinha quase tudo, para poder montar a minha “engenhoca” a que ele chamava galena.
Deitámos mãos á obra, naquela tarde de sábado que me ficou memorável.
Passadas umas duas horas, já tínhamos os componentes quase todos “encavalitados” em cima da tábua de madeira que carinhosamente tinha sido preparada por mim, sempre acompanhado pelos olhos vivos e felinos do Ti’Manél, que aqui e ali me ia dando indicações, da forma como devia utilizar o serrote, para não cortar algum dedo.
Seguiu-se a construção da bobina….foi o cargo dos trabalhos… pois nunca mais “atinava” com o jeito de segurar com os dedos as espiras já enroladas, evitando que aquilo tudo se desenrolasse desordenadamente.
Depois de algum esforço e paciência, lá consegui que tudo ficasse em condições de ser montado.
Mas…foi uma luta titânica, acreditem.!!!!
Passámos á fase seguinte, ver se aquilo funcionava.!!!
Testámos a montagem, e aquilo funcionou logo á primeira…tendo até o comentário do Ti’Manél, que me disse que aquela montagem estava mais “sensível” que a dele.!!!
Não percebi muito bem o que aquilo queria dizer, pois nunca tinha ouvido falar em “sensibilidade” de uma galena, mas enfim…quem era o Mestre era o Ti’Manél e eu era o aprendiz.!!!
- “Pronto rapaz…tens a tua galena pronta…já podes levá-la para casa e começares a ouvir musica descansado… só tens de arranjar um fio de terra e um fio de antena…..há…e não te esqueças…os auscultadores”.
Despedi-me do Ti’Manél até ao sábado seguinte, agradecendo-lhe uma vez mais, os seus préstimos e a sua disponibilidade para me aturar.
Regressei a casa.
Agora faltava agora o mais importante…”os auscultadores”….o fio de antena e o fio de terra.
Como é que eu me iria “desenvencilhar” desta situação.????
È o que vamos ver a seguir.
Tinha de arranjar maneira de passar um fio o mais disfarçadamente possível, desde o meu quarto até á casa de banho, local onde se encontrava (segundo indicação do Ti’Manél ) o ponto de ligação de terra, que era uma torneira do lavatório.
Levei uns quantos dias, a esquematizar a possibilidade do fio chegar á casa de banho sem ser visto pelos olhos da minha Mãe, sem que houvesse logo uma grande confusão de pôr os cabelos em pé.
Para isso…tinha de evitar fazer qualquer tipo de buracos, cortes, esmurradelas, etc…desde o meu quarto até ao local onde se encontrava a torneira.
Pensei….pensei….até que me surgiu uma ideia luminosa.!!!
Da porta do meu quarto até á porta do casa de banho, existia uma carpete vermelha e larga, que quase cobria toda a largura do corredor.
Aquilo… vinha mesmo a calhar .
Dai a passar o fiozinho por baixo da carpete, até á casa de banho foi um instante…aproveitei uma saída da minha Mãe á rua e…..”pimba” lá estava ele á saída da casa de banho, bem disfarçado ao canto da porta mesmo por detrás da dobradiça para não ser visto com facilidade.
Lá amarrei com umas quantas voltas, o fio em redor do tubo préviamente limpo com uma lixa fina e pronto….a primeira etapa tinha sido ultrapassada.
Percorri todo o percurso, para me certificar que aquilo estava mesmo dissimulado e que não haveria lugar a nenhuma descoberta triunfante da minha Mãe, dentro dos próximos tempos.
Agora só faltava o fio de antena…isso até foi o mais fácil.!!!
No meu quarto, havia uma mesa (secretária) que utilizava para fazer os meus trabalhos da Escola e onde arrumava algumas coisas pessoais, ficando esta, mesmo junto á janela que dava para a varanda.
Foi só passar o fio por trás da cama, por trás da secretária, e lá estava ele pronto, para sair através da janela para a varanda.
Aproveitei então, uns camarões que se encontravam colocados a cada lado da varanda e que em tempos tinham sido usados pela minha Mãe para numa corda, secar a roupa especialmente quando chovia.
Aquilo, estava ali mesmo a calhar que nem Ginjas.!!!
Fiz a antena tal como o Sr. Manuel me tinha explicado, com umas peças que ele me tinha dado, a que chamou isoladores de porcelana, um em cada extremo do fio, que deveria ter cerca de 10 metros, ocupando quase a totalidade do comprimento da varanda.
Depois num extremo do fio grosso que servia de antena, raspei-o e enrolei umas 10 voltas do fio mais fino, aquele que vinha de dentro do meu quarto pelo canto da janela…e…pronto, aquilo parecia que estava tudo acabado.
Faltava-me sómente agora resolver, o problema dos tais auscultadores, para conseguir ouvir a galena a funcionar.!!!
Fui a correr ao outro lado da rua, com a ideia de pedir ao “Ti’Manél do Cinema” os seus auscultadores para poder testar a “coisa” lá em casa.
Claro… que o pedido foi aceite de imediato pelo bom Homem, que prontamente me colocou nas mãos o tal instrumento, dizendo-me que podia ficar com ele durante uns dias.
Corri para casa…subi as escadas… mais rápido que um relâmpago…abri a porta e depois de quase ter tropeçado na minha Mãe, cheguei ao meu quarto.
Liguei os auscultadores aos alvéolos da minha galena e…..lá estava….a música dos Emissores Associados de Lisboa, com o Sr.Marques Vidal ao microfone, anunciando a programação para o período daquela emissão.
Aquilo funcionava mesmo….e bem.!!!
Fiquei todo satisfeito, depois de toda aquela luta feróz com as montagens, peças, fios, antenas, etc…etc..
Por mais voltas que desse, não conseguia saber onde é que havia de encontrar uma coisa daquelas.
Quero lembrar…que estávamos em 1965/66 e a Internet não existia, não havia informação nenhuma sobre casas que vendessem componentes electrónicos e fundamentalmente, o dinheiro não abundava nas minhas magras “algibeiras”.
Eis que….um dia ao falar com um colega da Empresa onde trabalhava, dei-lhe nota da dificuldade que estava a ter relativamente á obtenção dos auscultadores para a minha galena.
Ele calmamente…riu-se …olhou para mim e disse: - “ sabes uma coisa....todos os sacanas têm sorte.???” .
Eu fiquei meio confuso com a sua afirmação, até ele me esclarecer o que queria dizer com aquilo.
- Faz algum tempo, andei a tirar um Curso de Rádio numa Escola de Lisboa, acabei o Curso e tenho lá em casa todas as lições teóricas e práticas, bem como todo o material referente ás montagens práticas.
Se quiseres, poderei emprestar-te os auscultadores que serviram também para utilizar numa galena, que fazia parte das lições práticas desse Curso.
È claro.... que aceitei de bom grado, a oferta feita pelo meu colega de trabalho, que no dia seguinte me entregou, um lindo pare de auscultadores completamente novos em folha.
Levei os auscultadores para casa e experimentei-os na minha galena, com a satisfação de Ter verificado que a qualidade e a amplitude do sinal de audio, eram muito melhores que os velhinhos auscultadores do meu Amigo Ti’Manél do cinema.
Prontamente, fui entregar os auscultadores ao Sr.Manuel, reconhecido ficando uma vez mais, pela sua gentileza e confiança em me ter cedido tal peça rara.
Assim ficámos Amigos durante muito tempo, até que um dia…. o edificio do Cinema de Alverca ficou pronto…o Cinema/Circo acabou a sua actividade naquela localidade e…. o meu Grande Amigo Manuel,partiu….. com o seu Cinema ambulante para outras paragens.
Foi um duro golpe que senti e que mexeu muito com os meus “sentimentos” de miudo, pois durante muito tempo....sempre que abria a janela do meu quarto logo pela manhã…olhava para o outro lado da rua...para o descampado em frente... e via se o “Ti’Manél do Circo” lá estava á minha espera...sempre disposto para me aturar e satisfazer as minhas duvidas e parvoices de miudo de 15 anos, cheio de curiosidade e vontade de saber tudo... mesmo aquilo que não era para saber.
Alô… Sr.Manél....você deve-me estar a escutar na sua galena...por isso quero que saiba…que o Senhor foi um dos grandes culpados de hoje, eu pertencer ao tal grupo” dos tipos meio malucos que tem uns emissores e receptores lá em casa, que falam uns com os outros por todo o Mundo…eram salvo erro os RADIOAMADORES….”
Obrigado...por me ter aturado e por tudo aquilo que me ensinou.!!!
Ainda hoje... passado todo este tempo, parece que o estou a ouvir ainda a cantar baixinho: - “…um molhinho bem feitinho…faz indreitar o páuzinho…óh…lari…lari…loléééé…”

E como uma desgraça nunca vem só....passadas algumas semanas, o meu Colega de trabalho que me tinha emprestado os auscultadores, fez talvez a maior das asneiras da Vida dele....ofereceu-me todo o Curso de Rádio da tal Escola (Rádio Escola-Alvaro Torrão), na qual que ele tinha tirado o Curso.
Daí para a frente...foi uma desgraça meus Amigos...passados alguns tempos tirei outro Curso de Radio, desta feita no CIT-Centro de Instrução Técnica, montagens e mais montagens, sempre lutando contra tudo e contra todos....a prova é que ainda hoje aqui estou ...com muitas saudades desses tempos, em que as coisas eram tão dificeis de obter, mas que davam tanto gozo e prazer, sempre que construiamos qualquer coisa por muito simples que fosse e explodíamos de alegria e satisfação sempre que conseguia-mos os resultados esperados.
Ainda não faz muito tempo... estava em QSO nos 40 metros, com um Amigo da Velha Guarda ( CT4RK-Carlos Mourato ), onde recordávamos exactamente esses tempo passados da Radio e ele perguntou-me: - ...è pá... óh...Gonçalves, tu lembras-te daquele cheirinho que as válvulas dos emissores deitavam...quando estavam quentinhas..????
Fiquei sem resposta.... de tantas saudades que tive desses tempos.!!!
E você... prezado Leitor e colega Radioamador, lembra-se desse cheiro.????
Eu…. lembro-me.!!!!!

Francisco Gonçalves
CT1DL
2009

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